Amigos protestam em velório de ciclista atropelado: “Foi crime”

Jailson Barbosa foi morto quando pedalava rumo ao trabalho. Mulher que causou tragédia confessou ter cheirado cocaína

André Borges/Esp. Metrópoles

atualizado 28/01/2020 8:47

O corpo do ciclista Jailson Barbosa, 34 anos, foi velado na Assembleia de Deus da QS 402 de Samambaia Norte, na madrugada desta terça-feira (28/01/2020). Amigos e fiéis do templo que ele frequentava se reuniram para dar o último adeus.

Envoltos num clima de inconformidade pelo falecimento prematuro do homem, morto num crime de trânsito provocado por uma mulher que confessou dirigir embriagada e sob efeito de cocaína, a cerimônia foi marcada por homenagens, cânticos e revolta.

Amigo de Jailson desde que ele saiu do interior de Goiás e chegou ao Distrito Federal, Eduardo Torres, 34, considerava o ciclista um irmão.

“Dói saber que ele se foi. Dói mais saber que a pessoa que fez isso está livre por aí. Aquela decisão da Justiça é um absurdo, uma vergonha. Dizer que uma pessoa como ela não oferece perigo? Um absurdo”, indigna-se.

Uma amiga de Jailson, Osana Ferreira, que o conhece há 18 anos, também não conseguia esconder a revolta. “Isso não foi um acidente, foi um crime. Porque para dirigir tem que estar consciente: ela estava bêbada e cheirou cocaína, ou seja, não estava se importando em matar alguém. Fazer o que ela fez e não ficar presa é porque não existe Justiça, pelo menos não a dos homens. Ela que aguarde a de Deus”, desabafou.

Abalada, a mãe do ciclista não saia de perto do caixão e preferiu não se pronunciar.

De Samambaia, o corpo seguirá para São Luís (GO), onde a vítima nasceu e foi criado. Na cidade natal, haverá outro velório, antes do enterro, no cemitério municipal.

Álcool e cocaína

O delegado responsável por apurar o acidente, Gutemberg Morais, disse que a motorista Luzia Ferreira de Assis, 24, confessou ter feito uso de cocaína. De acordo com investigador da 15ª Delegacia de Polícia (Ceilândia Centro), os novos elementos podem resultar em um novo pedido de prisão, mas isso só será feito após a conclusão do laudo pericial que vai indicar a velocidade média do carro dirigido pela mulher na hora da tragédia.

“Ela estava dirigindo um veículo sem as menores condições de circular, na chuva, sem habilitação e embriagada. Também confessou ter feito uso de cocaína. Não há marcas de frenagem e o dano causado ao veículo faz parecer que estava em alta velocidade. Mas isso só ficará esclarecido com o resultado do laudo pericial, que deve sair até sexta-feira.”

A Polícia Civil do DF mudou a tipificação do crime de homicídio culposo para doloso, ou seja, quando existe a intenção de matar. Se condenada, ela pode pegar até 20 anos de cadeia. “Tem que ver a materialidade dos fatos. No caso dela, nas condições em que ela e o veículo estavam, vimos que agiu com dolo, por tudo que já foi demonstrado. Além disso, não apresentou qualquer apreço pela vida humana ao assumir esse risco”, ressaltou Gutemberg.

De acordo com o policial, o teste do bafômetro feito por Luzia, na tarde de sábado (25/10/2020), acusou 0,51 mg de álcool por litro de ar expelido pelos pulmões. “O que a gente sabe é que o carro que ela conduzia estava a 200 metros de onde ocorreu o acidente”, destacou. A mulher, ainda de acordo com o delegado, saía de uma festa, em Ceilândia, e estava a caminho de outra, no Recanto das Emas.

Jailson seguia para o trabalho pela ciclovia da DF-459 quando foi atropelado. O homem estava na direção de Ceilândia e Luzia no sentido contrário. O ciclista foi pego de frente e ficou bastante machucado. Levado pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) para o Hospital Regional de Ceilândia (HRC), ele morreu na manhã dessa segunda-feira (27/01/2020).

“Destruiu nossa família”

“Destruiu nossa família.” Assim, Núbia Aparecida, 38, irmã do ciclista, resume o sentimento dela e dos demais parentes da vítima. Jailson morava em Brasília havia mais de 15 anos. Pai de uma garotinha de 2 anos, era empregado da Rede Potiguar, como panificador. No momento em que foi atropelado, seguia para o serviço, em Ceilândia. “Ele trabalhava muito. Era pela filha dele. Falava que precisava defender o pão de cada dia”, contou a irmã ao Metrópoles.

Segundo Núbia, fazia algum tempo que o irmão caçula havia optado por sair todos os dias de Samambaia para Ceilândia de bicicleta. A preocupação com a saúde era o motivo. “Ele dizia que estava meio acima do peso, então ia unir o útil ao agradável. Vendeu o carro e passou a pedalar todos os dias”, lembra.

A bicicleta, no entanto, era sinônimo de preocupação para Núbia na maior parte do tempo. “Quando chovia, eu sempre mandava mensagem pedindo para ele tomar cuidado. Não só de carro, mas também pegar uma gripe, né?”, pondera.

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Foi em um dia chuvoso em que Jailson acabou atropelado. Além da comprovada embriaguez, Luzia não tinha Carteira Nacional de Habilitação (CNH). “Acabou comigo e com a minha família”, disse a irmã.

Presa em flagrante, Luzia foi liberada após passar por audiência de custódia, fato que deixou Núbia indignada. “A juíza alegou umas atrocidades que, para mim, não fazem sentido. Infelizmente, uma pessoa dessas está em liberdade”, revolta-se.

Procurado, o Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TDFT) diz que não se manifesta sobre decisões judiciais. A Defensoria Pública, que atua no caso, também pontuou que “não se manifesta publicamente sobre a linha de defesa apresentada por investigados, a não ser que haja autorização destes”.

Neste momento de tristeza, Núbia diz que tem rezado muito para conseguir forças e seguir em frente. “Ainda preciso liberar o corpo no IML, talvez hoje [segunda] no final do dia. Tudo é muito triste, mas sei que Deus vai me ajudar”, ressaltou.

O que resta para a irmã da vítima são as lembranças do irmão, que era também um grande amigo. “Era uma pessoa queridíssima. Quem via pela primeira vez já ficava amigo”, destaca.

Outro caso

Também nesse fim de semana, um adolescente de 18 anos morreu enquanto trocava o pneu do carro. Ele foi atropelado por um motorista embriagado. O caso ocorreu na BR-020, próximo ao balão do Colorado.

De acordo com o Boletim de Ocorrência feito pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER-DF), a vítima, Gabriel Jorge Neves de Jesus, veio a óbito logo após ser atingido pela VW Amarok. O condutor, bêbado, que estava com CNH vencida e suspensa, nada sofreu. Ele ainda tentou fugir do local do acidente, mas pessoas que presenciaram o fato não deixaram.

Veja a repercussão do atropelamento e morte de Jailson nas redes sociais:

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