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É correto censurar uma música machista? E a liberdade de expressão?

"Só uma surubinha de leve", de MC Diguinho, cruza a linha da livre manifestação de ideias ao incitar o crime de estupro

Nana Queiroz23/01/2018 05:28, atualizado 23/01/2018 10:06
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"A male face with a taped mouth and a red cross on it symbolizing censorship.Censorship is all around.Freedom of speech is the political right to communicate one's opinions and ideas via speech. The term freedom of expression is sometimes used synonymously, but includes any act of seeking, receiving and imparting information or ideas, regardless of the medium used. In practice, the right to freedom of speech is not absolute in any country and the right is commonly subject to limitations, as with libel, slander, obscenity, copyright violation and incitement to commit a crime."
É correto censurar uma música machista? E a liberdade de expressão?

Nesta semana, o debate das redes sociais se deu em torno de “Só uma surubinnha de leve”, do MC Diguinho. Entre outras coisas, a música dava aos homens as seguintes orientações: “Taca bebida, depois taca pica/ E abandona na rua”. É fácil concordamos que a letra é de um tremendo mau gosto. Mas não foi tão simples atingir um consenso sobre o Spotify, a pedido das usuárias, ter resolvido tirar a canção de circulação na plataforma.

Afinal, e a liberdade de expressão? As pessoas não querem o direito de viver, pensar e cantar seus próprios valores? Ao censurarmos “Só uma surubinha de leve” não estaríamos dando espaço para conservadores censurarem, por exemplo, músicas sobre a homossexualidade que, do ponto de vista deles, seria algum jeito desrespeitoso de amar?

A decisão a ser tomada em casos como esse depende do tipo de sociedade que queremos ser. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde morei por três anos, a liberdade de expressão é um valor tão supremo que os americanos permitem até mesmo declarações racistas sem enfrentar consequências – inclusive o presidente do país diz absurdos, vale lembrar.

No Brasil, temos, historicamente, tomado uma decisão diferente, a qual eu, particularmente, acho mais justa e digna. Aqui, o racismo é crime. Nós consideramos, enquanto sociedade, que o direito à liberdade de expressão acaba justamente quando começa o do outro, assim como os demais. E “Só uma surubinha de leve” cruza essa linha ao incitar o crime de estupro.

Acredite, há quem não saiba que embebedar uma mulher para tirar vantagem sexual dela é crime e configura estupro, tamanha a desinformação (ou má educação) do homem brasileiro. O próprio MC mostrou desconhecer a legislação ao declarar no Twitter: “Se a minha música faz apologia ao estupro, prazer, sou o mais novo estuprador”.

Obviamente, Diguinho não pretendia confessar o crime em rede nacional, mas defender que o comportamento de embebedar mulheres e transar com elas enquanto não estão no pleno uso de sua consciência é algo normal.

O recado ao MC Diguinho e aos milhares de fãs que colocaram essa música desprezível no topo das paradas é: sim, isso é crime. Em geral, é fácil perceber quando uma mulher está desacordada, trançando as pernas ou não dizendo coisa com coisa. Mas a linha, de fato, é tênue porque muitas pessoas gostam de transar depois de beber e não há problema nenhum nisso.

A dica é ficar atento para saber se as duas pessoas em questão não estão com sua capacidade de discernimento prejudicada. Na dúvida, pergunte a ela se não bebeu demais. Fale do seu receio em desrespeitá-la — acredite, vai pegar super bem. E, se permanecer sem uma certeza de que ela está consciente o suficiente, deixe para a próxima. Mais vale perder a oportunidade de transar a perder a liberdade ou a dignidade, não é mesmo? Porque estupro, queridos, nem “de leve”.