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São Paulo é referência internacional quando o assunto é energia limpa. Atualmente, 59% da matriz energética paulista é proveniente de fontes renováveis, segundo o Balanço Energético do Estado de São Paulo (BEESP) 2025, com ano-base 2024.
Entre as alternativas que ganham destaque está o biometano, apontado como uma solução viável e estratégica para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. A tecnologia vem sendo estudada como uma das principais apostas para acelerar a transição energética no transporte público e contribuir para o cumprimento das metas climáticas do estado.
Para debater os desafios e oportunidades da expansão do biometano, o Metrópoles Talks, realizado nesta quinta-feira, 28, promoveu o painel “Biometano: energia limpa para mover o futuro da cidade”, dentro do tema “Mobilidade Sustentável: a transformação da mobilidade urbana em direção a uma cidade mais sustentável”.
O painel reuniu os especialistas: Victor Hugo, atual presidente da SPTrans; Josiani Napolitano, presidente da ABiogás; e Bruno Dalcolmo, executivo da Comgás e especialista em políticas públicas e regulação energética.

Embora o biometano ainda seja pouco conhecido por parte da população, São Paulo se prepara para superar a produção de 800 mil m³/dia até dezembro de 2026, dentro de um potencial estimado de 6,4 milhões de m³/dia.
O combustível é produzido a partir da purificação do biogás gerado por resíduos orgânicos, aterros sanitários e atividades agroindustriais. Neste contexto, Victor Hugo destacou o papel da tecnologia alternativa complementar à eletrificação da frota.
“O biometano vem como uma alternativa para não dependermos unicamente da eletrificação total da frota. O Programa BioSP, por meio do Decreto nº 64.519/2025, prevê a incorporação gradual de ônibus movidos a biometano ao sistema municipal de transporte”, contou.
O programa estabelece diretrizes estratégicas voltadas ao aumento da competitividade, planejamento da infraestrutura logística, ampliação da demanda no transporte pesado e na indústria, além do fortalecimento da cadeia de serviços de biometano em São Paulo.
O presidente da SPTrans ressaltou ainda que as concessionárias poderão aderir ao programa por meio de aditivos contratuais, permitindo investimentos em novos veículos e infraestrutura de abastecimento.
Hoje, a capital paulista concentra mais de 80% da frota elétrica em circulação no país, com 1.259 ônibus elétricos. O estado também planeja substituir gradualmente os caminhões de coleta de lixo movidos a diesel.
“A nossa meta é que, nos próximos anos, 13 mil ônibus deixem de utilizar mais energia fóssil. Já operamos com 27 carretas e 22 caminhões movidos a biometano, reduzindo 95% das emissões de CO², o equivalente ao plantio de 134 mil árvores por ano. Temos um arcabouço técnico e legal para ampliar esses números com segurança”, explica Victor.
Atualmente, São Paulo conta com nove plantas de biometano autorizadas, responsáveis por uma capacidade de produção de 700 mil metros cúbicos por dia. A projeção é chegar a quase 1 milhão de m³/dia em 2027.

Josiani Napolitano destacou a competitividade em relação ao diesel e o potencial de aproveitamento dos resíduos produzidos no estado.
“O volume de resíduos produzidos em São Paulo é gigantesco, e esse resíduo precisa ter uma destinação adequada. O estado tem capacidade de produzir cerca de 6,4 milhões de m³ de biometano por dia no curto prazo”, afirmou.
Além de contribuir para a descarbonização, o biometano também traz uma série de benefícios econômicos, sociais e ambientais, entre eles:
- Potencial de geração de até 20 mil empregos diretos e indiretos;
- Fortalecimento da indústria nacional de equipamentos, tecnologia e serviços voltados ao setor de biogás e biometano;
- Avanço na gestão sustentável de resíduos e efluentes urbanos, industriais e agropecuários;
- Melhoria da qualidade do ar nos centros urbanos, com a substituição gradual do diesel por um combustível renovável e menos poluente;
- Redução da dependência de combustíveis fósseis e maior segurança energética, diminuindo a necessidade de importação de diesel e gás natural;
- Estímulo à economia circular, transformando resíduos orgânicos em fonte de energia limpa e renovável.

Bruno Dalcolmo comparou o biometano à descoberta do pré-sal, destacando as possibilidades de geração de riqueza e melhoria da qualidade de vida.
“É justamente esse potencial que enxergamos hoje. No longo prazo, o combustível renovável poderá substituir parte relevante do gás natural fóssil, o que representa geração de empregos, aumento da arrecadação e desenvolvimento econômico sustentável”, declarou.
O executivo da Comgás ressaltou que São Paulo já possui uma infraestrutura estratégica consolidada para acelerar essa transição energética, construída ao longo de 153 anos.
“São mais de 23 mil quilômetros de rede de distribuição, capazes de conectar a produção de biometano — concentrada principalmente no interior paulista — aos grandes centros consumidores, indústrias e empresas. O desafio hoje não é tecnológico. O avanço depende, sobretudo, de políticas públicas e investimentos privados para ampliar a competitividade dessa solução sustentável”, completou.
Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontam que o biometano poderá substituir economicamente até um terço do consumo de diesel e gasolina no país, especialmente no transporte pesado e na indústria.
A expectativa é que o crescimento do setor atraia bilhões em investimentos e consolide o Brasil como uma das principais referências mundiais em energia renovável produzida a partir de resíduos.
