Brasil é líder mundial em mortes de profissionais de enfermagem

Segundo dados do Conselho Internacional de Enfermagem, o país representa 38% das mortes registradas de profissionais da categoria no mundo

atualizado 25/05/2020 11:13

De todos os países do mundo, o Brasil é o que mais têm perdido profissionais de enfermagem para o novo coronavírus (Covid-19). De acordo com levantamento do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), são 137 mortes de técnicos, auxiliares e enfermeiros decorrentes da pandemia.

Os Estados Unidos, que têm o maior número de casos registrados da doença (1,6 milhão de pessoas infectadas), já perderam 91 profissionais de enfermagem até o início deste mês. Espanha e Itália, que já sofreram demais com os impactos causados pela pandemia, registram juntos 89 mortes de profissionais da categoria.

Segundo dados do Conselho Internacional de Enfermagem, o Brasil representa 38% das mortes registradas de profissionais de Enfermagem no mundo, que já contabilizam 360.

“O índice mostra o despreparo do país para enfrentar a pandemia”, aponta Manoel Neri, presidente do Cofen.

A região Sudeste contabiliza 47% do total registrado no Brasil e lidera as estatísticas no país. Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Amazonas, respectivamente, são as cidades que mais perderam profissionais de enfermagem para o coronavírus.

Das 137 mortes registradas, 99 são de profissionais acima dos 41 anos. Os mais jovens lideram o número de casos suspeitos. Já foram afastados mais de 6 mil profissionais com idades entre 31 e 40 anos e quase 3 mil entre 20 e 30 anos.

De acordo com dados do Cofen, mais de 15 mil profissionais precisaram se afastar das atividades diárias por suspeita de Covid-19. Destes, 4.717 testaram positivo para a doença. A cidade de São Paulo lidera esses números, seguida de perto por Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.

“O número de casos é alarmante. É um problema que o poder público deve enfrentar, porque isso leva à desassistência da população brasileira”, afirma Manoel Neri.

Segundo o presidente do Cofen, são várias as razões para o aumento de casos e de mortes entres as equipes de enfermagem: falta de treinamento para lidar com o coronavírus, escassez e baixa qualidades dos equipamentos de proteção individual (EPIs), exposição de grupos de risco e sobrecarga de trabalho, que resulta em cansaço físico e mental, aumentando consideravelmente o risco de contágio.

Já são mais de 6,2 mil denúncias recebidas pelos Conselhos Regionais de Enfermagem desde o início da pandemia. A grande maioria relacionadas a problemas com EPIs. “Existe um esforço de governos e empresas para aquisição de EPIs, mas ainda há escassez”, conta Manoel Neri. “A mesma máscara tem sido usada em plantões de 12 horas. Elas deveriam ser trocadas a cada duas horas, no máximo, 6 horas. Além disso, muito aventais não são impermeáveis”.

Enfermagem vulnerável

Não é só a falta de EPIs que tem angustiado profissionais de enfermagem pelo Brasil. A carga desgastante de horas trabalhadas e a manutenção de profissionais dos grupos de risco na linha de frente contra o coronavírus são dois problemas que estão no radar do Cofen.

Olhar enfermeiro
Sobrecarga já era um problema antes mesmo da pandemia

“Há uma sobrecarga em função do problema crônico de falta de pessoal, que já existia nos serviços públicos de saúde antes da pandemia, agravada agora pelo fato de que muitos estão adoecendo e precisam se afastar”, diz o presidente do Cofen. “E nem sempre esses profissionais são substituídos”.

A manutenção de profissionais do grupo de risco no cuidado aos pacientes contaminados tem contribuído para a letalidade e alto índice de casos. 18% dos profissionais de enfermagem que morreram tinham entre 61 e 70 anos.

De acordo com Manoel Neri, muitos profissionais do grupo de risco, seja com mais de 60 anos ou com comorbidades, como diabetes, hipertensão e obesidade, continuam atuando no tratamento de pacientes diagnosticados com Covid-19, tanto no serviço público como no privado.

O Cofen e os Conselhos Regionais de Enfermagem têm trabalho em prol da categoria. Ações civis públicas contra a União e instituições de saúde privadas foram movidas para garantir o afastamento dos integrantes dos grupos de risco.

Uma liminar já determinou que esses profissionais sejam realocados para funções que não envolvam o contato com pacientes contaminados. Os conselhos pedem também na Justiça a realização de mais testes em equipes de enfermagem.

“Não temos testagem em massa e isso dificulta o controle da transmissão. Testar é importante também para identificar casos assintomáticos, que podem transmitir o vírus”

explica Manoel Neri

Apesar dos números negativos e dos afastamentos, o Brasil não sofre com a escassez de profissionais de enfermagem. São quase 2,5 milhões de trabalhadores na categoria e estima-se que metade está atuando no combate ao coronavírus.

A grande maioria dos profissionais da categoria é composta por mulheres – mais de 80% – e muitas trabalham em duas ou mais instituições de saúde. A categoria reivindica, há mais de 20 anos, piso salarial nacional e jornada de 30 horas semanais, projetos que estão parados na Câmara dos Deputados.