Asa Sul x Asa Norte: duas fêmeas bem diferentes uma da outra

Uma é solene, mais velha, mais rica. Tem Niemeyer e Athos. É um imenso bosque residencial. A outra, é mais jovial, mais inquieta e misturada

atualizado 02/02/2020 12:42

Um dia, vendo que o tempo era muito curto para tanta obra, Lucio Costa sugeriu a Juscelino que não abrisse a Asa Norte, que deixasse a tarefa para o governo seguinte. JK retrucou: abriria sim, sob pena de o Plano Piloto ficar capenga por muito tempo. E mandou que os tratores avançassem sobre o lado norte do avião, desenhando no cerrado o Eixo Rodoviário Norte, o Eixão do lado de lá.

Desde então, as duas asas criaram personalidade própria e distinta. A Asa Sul, mais solene, cerimoniosa; a Asa Norte, mais informal.

Mais rica e mais velha, a Asa Sul, abriga a arquitetura de Niemeyer, o paisagismo de Burle Marx, os azulejos de Athos Bulcão. Nela está o quadrilátero (107/108, 307/308) que melhor representa o projeto de superquadras, a grande contribuição de Lucio Costa para o urbanismo moderno.

A Asa Norte se alimenta do novo, do inquieto, do subversivo, do pensamento e das artes em estado de floração – a UnB, a universidade que se deita à beira do lago e reúne a arquitetura de maior qualidade aqui produzida depois dos primeiros anos de Brasília. A atmosfera UnB se derrama pelas 400, entre a 408 e a 412, um pouco mais, um pouco menos. (Se o cerco do atraso apertar muito, vamos todos para a UnB construir barricadas de resistência das conquistas civilizatórias).

A Asa Norte é mais misturada; a Asa Sul, mais distinta, embora as duas tenham uma renda média mensal digna dos países nórdicos. O comércio local da Asa Norte, de dois andares, é de morar e trabalhar. O da Asa Sul responde ao projeto de Lucio Costa – a segmentação levada a extremos.

Se a Asa Norte tem um parque, o Olhos d’Água, a Asa Sul tem – ao largo – Parque da Cidade e é, em si mesma, um parque. Os renques de árvores adultas sombreiam as calçadas, as pracinhas internas e roçam as janelas dos apartamentos.

A Asa Sul é o Plano Piloto caminhando para a velhice (tem o maior número de velhinhas com mais de 80 anos, por metro quadrado, de todo o DF). A Asa Norte é o Plano entrando na maturidade, mas ainda disponível para uma Praça dos Prazeres.

Fenômeno mais ou menos recente da capital do concreto gelado, os bloquinhos de carnaval preferem a Asa Norte. O Pacotão, já de certa idade, sai da 302 Norte rumo à Asa Sul. Quando era jovem e atrevido, saía pela contramão. Hoje já não sei mais.

Até o Eixão do Lazer é diferente nas duas asas. O Norte tem mais ofertas: parquinhos infláveis, lanchinhos gurmês. O da Asa Norte, já se aproximando da Ponte do Bragueto, tem os meninos e as meninas do longboard, um tipo mais sofisticado de skate.

As ocupações mais criativas das casas das 700 estão na Asa Sul – arquitetos, artistas plásticos, músicos, designers moram e trabalham, junto ou separados, nas casinhas da Sul.

Os botecos mais pé-sujo da cidade estão na Asa Sul. Alguns cresceram muito, mas ainda não caíram na onda do tudo-muito-arrumadinho e caro. A Asa Norte também tem os seus, mas sem a cara sessentona da Sul.

A W3 Sul é, dos legados, o mais resistente da Asa. Lojas antigas, com um estoque de ferramentas, coisinhas de casa, tecidos, armários, que não se encontra mais em lugar nenhum do Plano Piloto. A Asa Sul tem o setor mais urbanística e humanamente rico de todo o Plano Piloto, o Setor Comercial Sul.

Fossem melodia, a Asa Sul seria um concerto de câmara; a Asa Norte, um concerto de rock ou, pra meu gosto, um samba de roda.

*Esta crônica foi feita com a ajuda preciosa de Jul Pagul, Érica Montenegro e Mercês Parente.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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