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Tácio Lorran

MP investiga ANTT por dificultar concorrência e favorecer empresários

Entre os alvos da investigação está o diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Sampaio; agência estaria favorecendo grandes empresas de ônibus

13/07/2026 02:00
Foto: Rebeca Takechi / Comunicação ANTT
Diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Rodrigues da Rocha Sampaio

O Ministério Público Federal (MPF) investiga dirigentes da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) por usar os poderes de fiscalização e de regulação para, supostamente, perseguir empresas e criar obstáculos artificiais à livre concorrência no setor de transporte interestadual de passageiros.

Entre os alvos da investigação estão o diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Rodrigues da Rocha Sampaio, e o Superintendente de Fiscalização (Sufis), Hugo Leonardo Cunha Rodrigues.

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Superintendente de Fiscalização da ANTT, Hugo Leonardo Cunha Rodrigues
Diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Rodrigues da Rocha Sampaio
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Diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Rodrigues da Rocha Sampaio

Superintendente de Fiscalização da ANTT, Hugo Leonardo Cunha Rodrigues
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Superintendente de Fiscalização da ANTT, Hugo Leonardo Cunha Rodrigues

Divulgação/ ANTT

Inquérito civil aberto pela Procuradoria da República no Distrito Federal (PRDF) diz que a agência descumpre ordens judiciais favoráveis a plataformas tecnológicas e novas viações que buscam operar no setor. Impõe sigilo genérico a processos e documentos que, por determinação constitucional, deveriam ser públicos para esses atores. Além disso, cria “óbices” regulatórios e pratica “assédio institucional” contra novas participantes do mercado.

As condutas visariam favorecer as empresas tradicionais do setor, que exercem forte influência sobre o órgão. Procurada, a ANTT informou que se manifestará apenas nos autos do processo.

Num dos casos que fundamentaram a apuração, o MPF constatou que a agência ignorava, desde janeiro de 2024, uma ordem judicial para analisar pedidos de empresas para explorar linhas de ônibus em rotas que não têm o serviço, “omitindo-se deliberadamente e praticando atos protelatórios”.

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“O descumprimento de comandos judiciais válidos por quase dois anos não se justifica sob a tese da discricionariedade técnica ou da estrita legalidade. Quando a autarquia ignora prazos e reitera exigências preclusas para não outorgar linhas em mercados manifestamente desatendidos, o que se divisa não é zelo regulatório, mas sim obstrução e direcionamento de mercado”, sustenta o MPF, em documento obtido pela coluna.

Essa conduta caracteriza os possíveis crimes de prevaricação e de desobediência por parte de gestores, além de configurar, em tese, ato de improbidade administrativa. Por isso, uma apuração criminal também está em curso.

MPF investiga diretores da ANTT por suposto favorecimento a grandes empresas de ônibus
MPF investiga diretores da ANTT por suposto favorecimento a grandes empresas de ônibus

Houve caso, segundo a Procuradoria, em que notas técnicas favoráveis a empresas supostamente perseguidas pela agência desapareceram de processos administrativos, cujo acesso tem sido dificultado pela agência com a imposição de sigilo genérico.

“A conduta da ANTT afronta diretamente o artigo 37, caput, da Constituição Federal, que erige a publicidade como vetor intransigível da Administração Pública, bem como a Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011). A imposição de sigilo sem parecer específico e fundamentado que demonstre risco real à segurança da sociedade ou do Estado serve unicamente para obstar o controle externo e violar o direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa”, sustenta o MPF.

MPF identifica “fortes indícios” de que ANTT estaria favorecendo grandes empresas tradicionais de ônibus

Em outro caso investigado, o diretor-geral do órgão, Guilherme Theo Sampaio, retirou das mãos do diretor Alex Antonio Cruz o processo que regulamenta as sanções e medidas administrativas no transporte regular rodoviário coletivo, repassando-o para um diretor considerado mais próximo, Felipe Queiroz. A manobra foi possível por meio do cancelamento da distribuição do caso e da nomeação ad hoc do substituto.

“Conquanto a autarquia defenda que a manobra se legitimou por critérios estritamente técnicos de urgência e familiaridade com a matéria regulatória, a concentração de feitos de alta relevância concorrencial e o afastamento repentino do Diretor originalmente sorteado na mesma data da distribuição, sem a concomitante demonstração analítica de erro manifesto ou suspeição fática, incitam fundadas dúvidas sobre o real respeito ao princípio do juiz natural e da impessoalidade administrativa”, argumenta a PRDF.

O MPF oficiou a ANTT para que informe se abriu o sigilo de processos antes inacessíveis e se cumpriu as ordens judiciais.

“Subsistem fortes indícios de que a estrutura fiscalizatória da ANTT tem sido instrumentalizada para criar ‘óbices artificiais à livre concorrência’, favorecendo empresas tradicionais em detrimento de novas plataformas tecnológicas. Faz-se mister aprofundar as medidas investigativas criminais e cíveis para individualizar a responsabilidade de servidores, gerentes e do próprio Superintendente da Sufis [o superintendente de Fiscalização Hugo Leonardo Cunha Rodrigues]”, afirma a Procuradoria.

No mês passado, conforme mostrou a coluna, o Ministério Público já havia cobrado a ANTT para que explicasse o motivo de ter suspendido a janela extraordinária, processo que visa à admissão de novas empresas no serviço de ônibus.

Fachada da ANTT
Sede da ANTT em Brasília