
Rodrigo FrançaColunas

Caso Helber Alves e os 73.041 desaparecidos de 2025
No primeiro semestre de 2025, 77.041 pessoas foram registradas como desaparecidas no país
atualizado
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Na madrugada de 23 de dezembro, a rotina de Natal da família de Helber Alves virou um desaparecimento sem explicação. Depois de sair da casa da irmã em Barueri, o produtor audiovisual embarcou na linha de trem em direção à capital paulista. A última imagem confirmada foi na estação Cidade Jardim, por volta das 2h. Não fez postagens, não atendeu chamadas e desde então parece ter sido engolido pela noite.
O que ocorreu nas horas seguintes permanece obscuro. A Polícia Civil de São Paulo afirma que as investigações seguem, sem descartar hipótese alguma. Mas quais pistas existem de fato? Até agora, nada além do silêncio que cresce enquanto o tempo passa. Esse vácuo de informações é exatamente o ponto onde o caso de Helber cruza com um fenômeno nacional que evita ser visto: o Brasil acumula vencimentos de desaparecimentos que não são investigados com a urgência que exigem.
Os números oficiais mais recentes mostram que, no primeiro semestre de 2025, 77.041 pessoas foram registradas como desaparecidas no país. Essa estatística não é abstrata, ela significa 231 pessoas por dia sem resposta, sem paradeiro e, para grandes parcelas da sociedade, sem prioridade institucional. Entre elas, 21.871 eram crianças e adolescentes, um sinal vermelho que deveria estar nas manchetes diárias, não restrito a relatórios técnicos.
Ao cruzar dados com variáveis sociais fundamentais, percebe-se uma segunda camada da crise: 54,3% das pessoas desaparecidas em 2025 são negras, mas a chance de serem localizadas é menor quando comparadas às pessoas brancas, que representam 54,1% dos casos em que a pessoa é encontrada, de acordo com dados da Universidade São Paulo. Isso expõe uma desigualdade que ultrapassa a dimensão da busca por pessoas, adentrando um padrão de invisibilidade social que não é novo, mas que se reproduz com consistência perturbadora.
O Brasil possui mecanismos teóricos de resposta: a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas existe desde 2019, e o Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos (SINALID) foi concebido justamente para centralizar informações. Porém, na prática, esses mecanismos ainda caminham longe do que a urgência dos números exige. Falta integração real entre bancos de dados de diferentes órgãos, falta acesso a registros em tempo real, falta interoperabilidade entre forças de segurança, falta tecnologia de busca ativa integrada a ferramentas de comunicação e redes sociais que, nos últimos anos, se tornaram cruciais para localizar desaparecidos rapidamente.
Especialistas em criminologia e segurança pública ouvidos por este colunista alertam que os primeiros 48 a 72 horas são cruciais para localizar uma pessoa desaparecida. Passado esse período, as chances de resolução caem drasticamente. No caso de Helber, mesmo com mobilização familiar e pressão pública, o relógio segue sem respostas claras.
A desigualdade racial nos índices de localização também funda uma inquietação profunda: por que, em um país que possui compromissos legais e institucionais com direitos humanos, a racialização dos desaparecimentos funciona como um filtro invisível que diminui a visibilidade de determinadas vidas? A hipótese de falhas estruturais não basta, é preciso explorar como a falta de instrumentos de busca equitativos se traduz em práticas investigativas diferenciadas dentro das polícias e das instâncias públicas responsáveis.
A ausência de um sistema padronizado de busca ativa e a fragmentação de informações incentivam uma abordagem reativa em vez de proativa. Em vez de antecipar e conectar pistas, o processo muitas vezes se resume a aguardar que familiares ou conhecidos apareçam com informações, como se a responsabilidade da busca fosse transferida para quem já vive o trauma de perder um ente querido.
O caso de Helber converte-se assim em um espelho do que acontece com dezenas de milhares de brasileiros em 2025. Pessoas desaparecem, números são registrados, mas faltam políticas públicas robustas, financiamento dedicado, infraestrutura tecnológica e, acima de tudo, um compromisso real com a busca humanizada e eficiente de vidas humanas.
Sem uma política pública que garanta busca imediata, integração de dados e foco equitativo, o Brasil seguirá acumulando desaparecimentos como se fossem inevitáveis, enquanto famílias entram num ciclo de espera e incerteza que consome gerações. O silêncio que cerca o paradeiro de Helber Alves não é apenas um caso a ser resolvido, é um chamado para que se rediscuta a forma como tratamos as ausências, as desigualdades e o valor de cada vida que some da estatística.
