“Ah, o estrago de Flávio cavalgando ‘dark horse’ não foi assim tão grande nas pesquisas”, tentam dizer para si mesmos os bolsonaristas flavianos e os extremistas de centro do colunismo reacionário que se finge de apenas conservador, hipótese em que “democracia ou não” seria causa excludente de adesão. Mas os valentes topam uma quase-ditadura se for para aposentar Lula e, se me permitem, aposentar da vida os aposentados…
Um pensamento intrusivo: “flaviano” já designou uma dinastia no Império Romano. Os flavianos fizeram, entre outras coisas apreciáveis —embora imperadores sempre fossem também detestáveis… É a vida! — o Coliseu. Vespasiano começou; Tito, filho mais velho, concluiu, e Domiciano, o mais novo arrematou. Deve ser a ruína mais famosa da história da humanidade. Os nossos flavianos já começam a sua jornada pelas ruínas. Escolha quem quiser. Estou fora desse barco. O meu vai para outra praia. Adiante.
“NÃO É ASSIM TÃO RUIM”?
Hein? “Não é assim tão ruim”, dizem os porta-vozes da Bozolândia? Esgrimem muito especialmente o Datafolha como suposta evidência. O presidente venceria o Número Um da Dinastia Bolsonariana (esse é o nome de seu verdadeiro sangue político) por 47% a 43% no segundo turno se a eleição fosse hoje. Margem de erro de dois pontos. Empatavam em 45% há 10 dias; em 26 de abril, o senador estava numericamente à frente (46% a 45%), numa trajetória de aproximação. Os afoitos anteviram o fim da era Lula. Escrevi aqui e falei em toda parte que o petista seguia, como segue, favorito.
Antes de o “golpista moderado” (ah, a atração fatal de setores da imprensa pelo golpismo; Carlos Lacerda, ao menos, tinha lido bem mais de três livros; não torna um golpista um ser superior, mas a linguagem ainda era de “Homo sapiens sapiens”…) ser escoiceado pelo Cavalo Negro azarão de um áudio, apontei que pesquisas outras apontavam que a queda de Lula e a ascensão de Flávio já haviam estancado.
“PINK E O CÉREBRO”
O Datafolha pode até ser menos severo com o homem que promete começar o Coliseu pelas ruínas, mas torço para que os “novos flavianos” o considerem virtuoso. Nota: eu sempre espero que o bolsonarismo ignore as minhas contraditas. Paulo Figueiredo tirou uma onda por esses dias, sugerindo, em tom irônico, que ouvissem “Reinaldo e os Noblats” neste “Metrópoles”, como a sugerir: “Que gente horrível!”
Eu continuarei a curtir os Noblats e a dizer e escrever o que penso, torcendo para que Figueiredo e Eduardo sigam firmes e nos ignorem a todos e se regozijem apenas com o que é do seu agrado na sua aspiração de dominar o mundo, como os ratos de laboratório “Pink e o Cérebro”… Aí me perguntam: “Quem é quem nessa metáfora, Tio?” Eles se alternam — democracia interna ao menos… Mas o fato é que a dupla é fã dos Reinaldos e Noblats. Mas que sigam fazendo o contrário. Conto com eles. Sigamos.
MAIS PESQUISAS
Outras pesquisas, com efeito, são mais hostis ao homem das ruínas. A Futura Apex apontava Flávio à frente de Lula desde janeiro. Vamos aos índices mensais até abril: 48% a 42%; 48% a 42,5%; 49% a 40,5% e 48% a 43%. Em maio, fizeram-se dois levantamentos: 47% a 44,5% para o Zero Um (e notem que a aproximação já estava em curso, pré-coice…) e 47,7% a 42,2%, mas com Lula na liderança. Em 10 dias, uma inversão espetacular. “Ah, nós, os flavianos do caos, preferimos o Datafolha”. Ok. O abismo fica um tanto mais distante. Mas abismo é.
No caso da AtlasIntel Bloomberg, com excelente histórico de acerto, as coisas também se complicam para a turma da “arquitetura da destruição” ao som dos fuzis das milícias. Notem:
Fevereiro:
Lula: 46,6%
Flávio: 46,3%
Março
Flávio: 47,6%
Lula: 46,6%
Abril
Flávio: 47,8%
Lula: 47,5%
Aí vem o coice:
Maio
Lula: 48,9%
Flávio: 41,8%
ATENÇÃO PARA O RELEVANTE
Qualquer que seja o número escolhido, o fenômeno é um só: Lula venceria Flávio se o segundo turno se desse hoje. Mas sustento que, mesmo sem o escândalo dos milhões de Vorcaro que os Bolsonaros supostamente destinaram ao filme — e que passaram pelas mãos de uma produtora que pediu uma casa à Prefeitura de São Paulo na Brasilândia, bairro mais pobre da capital (alguém falou em laranja de Mário Frias?) —, Lula já estaria na frente ou quase.
Ainda que não estivesse — e eu, cá comigo, contava com o petista atrás de Flávio até o início da campanha —, há, como diria o poeta, a enorme realidade. O poeta é Drummond: “Estou preso à vida e olho meus companheiros./ Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças./ Entre eles, considere a enorme realidade.
Lula já era favorito antes de vir à luz, do mundo das trevas, a bagunça protagonizada pelos irmãos. Até o Datafolha aponta que melhorou a avaliação que fazem os entrevistados sobre a atuação do presidente e sobre o governo: empatam hoje em 48% os que aprovam e reprovam a atuação do petista, depois de uma sequência de saldos negativos. Mais: 38% hoje consideram o governo “ruim ou péssimo”; 32% dizem ser “ótimo ou bom”, e 28% dizem ser regular.
A Folha insiste em dar uma manchete errada, talvez sem ouvir o instituto que supostamente a sustenta (ou é conivência?): “Datafolha: Avaliação do governo Lula melhora, mas ainda é negativa”. Errado. A avaliação não é negativa, mas positiva.
Publicar a manchete certa é prova de jornalismo, não de petismo.
Aluno regular passa de ano. Uma minoria de apenas 39% reprova o governo.
“Ah, Tio Rei, mas eu sou um entusiasta da “Arquitetura da Destruição” ela mesma, não do documentário — veja o filme quem ainda não o fez, uma obrigação civiluizatória —, e gosto de quem nos acena desde já com ruínas… Ok. Você já tem um candidato. E não é o meu.
“Pink e o Cérebro” planejam transformar em ruínas as ruínas do Coliseu. Esta coluna os flagrou arquitetando o crime em nome dos “extremistas de centro”…