
Reinaldo AzevedoColunas

PCC-CV-Trump: empate Lula-Flávio? Imprensa, Casseta e Porta dos Fundos
Falemos sobre “jornalismo-mentira e humorismo-verdade” e um esquete de “Porta dos Fundos”. E também sobre Burke, Paine e “O Grande Debate”
atualizado
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Leio alguns textos e algumas análises que passaram a tratar como “controversos” os esforços empreendidos pela família Bolsonaro para que os EUA classifiquem como “grupo terroristas” organizações criminosas como PCC e CV (milícias não…). E, por controversos, teríamos, então, “controvérsias”: de um lado, Lula (PT), o candidato à reeleição, busca demonstrar que se trata de uma ingerência dos EUA nos assuntos internos, com desdobramentos econômicos óbvios; de outro, Flávio (PL) se esforça para demonstrar que se preocupa com a segurança dos brasileiros — e, nesse caso, Trump ajudaria. Os mais “ousados” (e isso não é um elogio) veem dois processos de manipulação em curso — opostos, mas combinados: o petista estaria a usar a “soberania” como instrumento meramente eleitoral; e o postulante do PL (nego-me a chamar de “liberal”), a denunciar o que seria uma falsa questão. E aí pergunta a(o) ousada(o): “Quem vencerá?” Não sei. Mas o enigma começa em “Casseta & Planeta” e chega ao “Porta dos Fundos”. Vamos ver.
Este texto vai abordar política, humor e jornalismo. Com alguma reconstituição histórica. Como viram, comecei pelo último: desde que o “outro lado”, na imprensa, virou “outro-ladISMO”, a inteligência não teve mais paz, e a verdade vive sendo assediada pela mentira disfarçada de realidade alternativa. O sufixo “ismo”, escreve-se lá no Houaiss, designa “doutrina, sistema, teoria, tendência, corrente etc.”, e seu emprego costuma ter caráter pejorativo. Os realmente bravos, claro!, lutam para tirar o “jornalISMO” desse pântano, mas o “outro-ladismo” é tinhoso… Se pesquisarem, a origem do tal sufixo é grega e não tinha nada a ver nem com a degeneração dos conceitos nem com a do jornalismo…
POLÊMICA
Nota à margem neste terceiro parágrafo: se A acusa B de ter feito alguma coisa ou se a imprensa apura algo muito grave sobre Sicrano, é justo que B tenha a chance de se manifestar ou que Sicrano apresente a sua versão. Isso é “outro lado”. É virtude. E noto mais: deveria ser para valer, não um mero último parágrafo preguiçoso “só para não dizer que não falei das flores… do mal”.
Se, no entanto, num debate sobre vacina, a epidemiologista (hipotética) Simone Gomes assegura a sua eficácia, e Carlinhos da Silva Rocha a contesta, sustentando que o imunizante não serve para nada, é claro que a imprensa até pode registrar o, digamos, “confronto”. Ocorre que Simone é médica, pós-doutora pela USP e professora da UFRJ, e Rocha é gamer, empreendedor e fabricante de cerveja artesanal. Qualquer abordagem que dê a entender que a divergência entre eles se inscreve no saudável campo da pluralidade constitui uma aberração intelectual, moral e política. Eis o “outro-ladismo”.
Leiam, a propósito, “Cultura e Democracia – Discurso Competente e Outras Falas”, de Marilena Chaui. Aproveito para mandar um abraço à professora. O “discurso competente” costuma ser usado para desqualificar falas de resistência no campo na ideologia. O livro, brilhante, é de 1981. Na era do bueiro do capeta das redes, do “reino dos idiotas“ (by Umberto Eco), o obscurantismo é que se apresenta como o “discurso competente?”. Adiante.
IMPRENSA PATRULHADA
O bolsonarismo foi bem-sucedido na patrulha que promoveu contra a imprensa, que se sente compelida a tratar monstruosidades como mero “direito à divergência”. Fascistoides e celerados são convidados a expor as suas verdades contra, com alguma frequência, pessoas que estão munidas de dados e de ciência.
De um lado, ódio, rancor e preconceito — tomados como visão de mundo legítima —; de outro, ciência com um tanto de empatia. Mas, sobem como é…, no tempo do “outro-ladismo” e do “isentismo”, tudo fica igual. Parece que se está diante de um embate entre Edmund Burke, o precursor do bom liberalismo, e Thomas Paine, o do bom estado de bem-estar social. Alguns devem ter percebido que cito o livro de Yuval Levin “O Grande Debate – Edmund Burke, Thomas Paine e o Nascimento da Direita e da Esquerda”, publicado no Brasil pela Editora Record (2017). Um verdadeiro alumbramento. Nesse caso, sim, há um empate, no mundo das ideias, de grandezas contrastantes.
VOLTO A FLÁVIO, LULA, TRUMP, TERRORISMO ETC
É evidente que existe a dimensão eleitoral e eleitoreira nos esforços da família Bolsonaro para punir o Brasil. E não seria eu a negar que a reação de Lula também mira outubro. Mas esperem aí: litigantes costumam estar em lados opostos, não? Nem por isso é mera questão de polêmica eventuais divergências que possa haver entre eles sobre a esfericidade da Terra, a efetividade das vacinas ou o Teorema de Pitágoras.
Ninguém com um mínimo de decência democrática vai propor que se prenda o “gamer cervejeiro” antivacina, mas essa mesma decência impõe que sua estupidez não seja apresentada como um dos modos da verdade.
Quando setores da imprensa igualam o que fez Flávio à reação de Lula como meras “verdades contrastantes” sob realidade, aí, meus caros, não tem jeito: a professora epidemiologista foi equiparada ao idiota — e há um risco considerável de que ela perca o debate. Afinal, é a especialista a lidar com o invisível, não é mesmo? Nesse ponto, um enigma para os eleitores: eu deveria citar Maquiavel ou Saint-Exupéry? Considero intelectualmente delinquente criar equivalências entre as duas posturas, ainda que ambos estejam à caça de votos. As teses da família Bolsonaro para fugir das lambanças de “Dark Horse” efetivamente prejudicam o Brasil. As de Lula não. Decretar o empate é a falência do jornalismo.
Vou citar uma série do passado, a meu ver inigualável: “House”. Certa feita, a doutora Allison Cameron, uma de suas auxiliares e que mantinha com House (imagem, com alguns livros), uma relação de amor e ódio, lhe pergunta: “Mas o que você quer?”. Ele responde: “O que todos querem: aceitação, um pouco de amor e boas dicas de investimentos”. Isso é o que todos queremos. Mas cumpre indagar: com vacina ou sem?; com Terra redonda ou sem?; com ingerência na soberania ou sem?; com ciência ou sem?”.
O HUMOR
Se notaram, já tratei de jornalismo e de imprensa. Agora vou falar de humor.
“Casseta & Planeta” tinha um lema espetacular: “Jornalismo-mentira e humorismo-verdade”. As gerações nessa área do entretenimento — e da inteligência — se sucedem. Assistam, a propósito, o excelente documentário “Chico Anysio: Um Homem À Procura de Um Personagem”, dirigido por Bruno Mazzeo, um de seus filhos, e Joana Jabace. O gênio tretou um tanto com “C&P”. Por bons e maus motivos. A vida é sempre “real e de viés” (Caetano)…
O fato é que a turma do espetacular Bussunda era uma renovação na arte de fazer graça, e o conceito do “jornalismo-mentira e humorismo-verdade” constitui uma síntese insuperável. Outros humores passaram debaixo da ponte, sem que nada se perdesse. E se chegou a “Porta dos Fundos”.
Sabem a história que cito acima do embate entre a doutora da USP e um gamer sobre vacina? Trata-se de um esquete preciso de “Porta dos Fundos”. Eles elevaram, desse modo, o mote à sua potência máxima. Se, no grande debate, o idiota é alçado à condição de gênio alternativo, e o gênio, à condição de idiota circunstancial, então o idiota triunfa porque ninguém vence um pombo no jogo de xadrez: ele derruba todas peças, sai voando destrambelhado, caga na sua cabeça e ainda diz: “ganhei”. E a imprensa? Essa de que trato dará o seguinte título: “Kasparov e Carlsen não conseguiram vencer um pombo”. E será uma “verdade factual”, não é mesmo? E, no entanto, uma mentira essencial.
Mais um livro? Musil em “O Homem Sem Qualidades”. Na Kakânia imaginária, decadente, um gênio até podia ser tratado como idiota. Mas jamais se tratava um idiota como gênio. Se é que me entendem.
ENCERRO
Cito com frequência este livro e volto a fazê-lo: “A Anatomia do Fascismo”, de Robert Paxton. Só quando os fascistas conquistam as elites intelectuais e as políticas é que estão realmente prontos para chegar ao poder. E a imprensa faz parte dessa “elite”. Contribuo para o debate com os instrumentos que tenho: as pessoas com as quais falo, as minhas opiniões, um tanto de prefigurações… e livros. Se puderem, prestem mais atenção aos livros. Eis o vídeo que citei de “Porta dos Fundos”? Um grande debate ou uma impostura?