
Reinaldo AzevedoColunas

Gilmar X Zema: a lógica do estuprador fatalista toma parte da imprensa
Jamais fortaleça a tração dos adversários na esperança de que possa ganhar com isso. Se a escolha é honesta, é essencialmente estúpida
atualizado
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A lógica do estuprador ganhou a imprensa brasileira e dá as cartas em boa parte da análise política. Como é? Romeu Zema, ex-governador de Minas e pré-candidato do Novo, acusa Gilmar Mendes, num teatrinho de fantoches nas redes, de vender um “habeas corpus”, de trocar tal decisão por benesses, e o ministro deveria silenciar? Por quê?
O decano reagiu, acertadamente a meu ver, ao pedir a inclusão do buliçoso acusador — que só quer uma vaguinha como vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL) — no Inquérito das Fake News. E “sedizentes” defensores das liberdades democráticas — claro! — resolveram atacar Gilmar. Para surpresa de quem?
O magistrado virou hoje um incômodo na extrema direita e na quase totalidade da mídia reacionária. Até aí, tudo está no seu lugar. Mas também está a incomodar setores que se dizem de esquerda e que resolveram eleger o tribunal como o inimigo do povo — aliando-se aos reaças.
Tudo tem, ou deveria ter, um embasamento ou teórico ou fático. O da extrema direita nem precisa ser adivinhado. O desses sedizentes progressistas teria de vir a público com alguma bibliografia. Qual? Ainda será escrita? Não virá porque não há. Nunca me peçam para acreditar em guias geniais. Nem stalinista eu fui. Eu acredito — ou não, mas sempre com bases objetivas — em livros.
Sou, por exemplo, cristão. Mas a culpa não é da Bíblia. O Velho Testamento, com um Deus irascível e punitivista, jamais me seduziu. O do Novo, mais maneiro, filtrado pelo Cristo, ainda assim, confesso, não me tiraria da inércia. A beatitude sempre me dá um tanto de preuiça.
Mas aí veio Santo Tomás de Aquino. Quanto mais ele tenta, por exemplo, na “Suma Teológica” (enooorme…), provar que Deus existe, mais eu me convenço, como qualquer um que a tenha lido, de que suas provas são brilhantes falácias lógicas.
Ocorre que ele conseguiu a mais espetacular de todas as coisas: evidenciar não exatamente a existência de Deus, mas a sua necessidade. Até porque a única prova inconteste de que há um Altíssimo é a fé, que é indemonstrável. Ainda bem que Santo Tomás achou isso pouco e escreveu muito. Mesmo carola como sou, atravessaria o deserto com um tomista, mas nunca com um fanático. O primeiro toparia conversar sobre as dificuldades da empreitada. O segundo me mataria em nome de sua iluminação, ainda que, de verdade, só quisesse a minha água…
Vamos lá. Tentam me convencer de que Gilmar deveria ser caluniado em silêncio — e o crime é de calúnia, além da injúria — por Romeu Zema e alimárias congêneres. Eu não acho. O Supremo só é epicentro da crise para reacionários bolsonaristas que tentam se vingar do tribunal e para sedizentes progressistas do miolo mole.
“Ah, mas vamos tomar para nós a vanguarda da crítica ao STF para que essa pauta não seja monopólio da extrema direita…” A agenda anti-STF já é dos reacionários não só porque não gostem do Supremo, mas porque só existem em razão do ódio às instituições. A questão poderia ser respondida pela física, não fosse a política: nunca fortaleça a tração dos adversários na esperança de que possa ganhar com isso. Se a escolha é honesta, é essencialmente estúpida; sabendo-se burra desde sempre, não tem como ser honesta.
“Ah, mas o Gilmar fortalece Zema quando pede a sua inclusão no inquérito…” É o que chamo de aderir à lógica do estuprador… O violador sempre vai dizer que não pôde refrear os seus impulsos porque o objeto do seu ataque estava de minissaia, aceitou uma bebida ou se comportava de um modo “de quem queria dar”…
Qualquer um que compactue com a lógica de que é a vítima a responsável pelo mal que a aflige se aliou, por princípio, com o agressor. Pouco importa quem o diga, reacionário ou conservador, asseguro: será sempre contra o pacto civilizatório.
