Reinaldo Azevedo - Colunista

A cítara e a flauta: desafio de Messias em dias de crucificação do STF

Como se sabe, para muitos, intervenção boa do tribunal é aquela com a qual se concorda e imprópria aquela de que se discorda

atualizado

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Há a expectativa de que Jorge Messias obtenha, nesta quarta, ao menos o mínimo de 41 votos no Senado e passe a integrar o Supremo. Se a aprovação na CCJ é dada como certa, ninguém poria a mão no fogo ou retiraria a metáfora do clichê sobre o que vai acontecer no plenário. Os dias, como sabemos, andam hostis ao tribunal.

Muito se diz por aí que os críticos querem corrigir os defeitos da Corte e nada têm contra as suas qualidades. A afirmação é escandalosamente mentirosa. Parcela considerável do eleitorado bolsonarista e os discípulos do capitão no Congresso, por exemplo — ora a serviço de um filhote literal de golpista —, odeiam o Supremo em razão precisamente de suas virtudes. Não é muito diferente em setores da cobertura política.

Muitos não estão minimamente preocupados com este ou aquele contratos; com esta ou aquela proximidades. Isso tudo é conversa para boi dormir. E assim já era antes de o caso Master vir à tona. Bem, Eduardo Bolsonaro, por exemplo, já falava em fechar o tribunal em 2018, e o Inquérito das Fake News só existe porque se estruturou uma milícia para alvejar o tribunal, alvo de dezenas de manifestações golpistas dos “patriotas” ao longo de quatro anos, até culminar com a efetiva tentativa de golpe no fim de 2022 e com a patuscada violenta do 8 de janeiro de 2023. O resto é conversa para boi dormir.

É claro que esse pano de fundo estará presente na sabatina de Messias (em foto de Antonio Cruz/Agência Brasil). Vamos ver quantas vezes há de se manifestar o inconformismo com a ação do tribunal no combate ao golpe e quantas serão as manifestações hostis àqueles que apenas aplicaram as leis e a Constituição, razão por que os chefões da intentona estão em cana — ainda que haja gente em prisão domiciliar.

Apostemos na boa condução da sessão na CCJ. Sem pulso firme, o evento pode se converter num convite permanente a que Messias conteste a Corte que pode vir a integrar. Se não pode antecipar votos, é fatal que tentem cobrar do indicado uma opinião sobre assunto já votado alinhada a seus próprios preconceitos. Em muitos casos, lamenta-se, atos delinquentes contra ministros têm sido acolhidos na imprensa como simples exercício da liberdade de expressão. Vive-se um momento notável de perda de parâmetros e de limites.

Tome-se o caso do crime cometido por Romeu Zema contra o ministro Gilmar Mendes, atacado, numa peça de suposto “humor político”, ao fazer uma ironia quando acusou o ministro de vender um “habeas corpus”. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, disse ter achado tudo divertido e que homens públicos estão sujeitos a isso, hipótese, suponho, em que não se importaria em ser retratado por adversários, quem sabe até por integrantes da Corte, como o “ladrão da Sabesp”. Não emprego a artimanha para acusação indireta. Acho que aquela privatização foi porca, sim, mas não disponho de elementos para uma acusação de roubo. Entendo, no entanto, que Tarcísio não vai se importar se começar a ser feita. Afinal, diria, “é homem público e acha engraçado…”

É evidente que esses dias envenenados estarão presentes à sabatina. Já ouvi absurdos em penca em eventos assim quando as circunstâncias eram muito mais amenas. Haverá muita reclamação sobre a intromissão do Judiciário no Legislativo, como se o Supremo, em regra, apresentasse demandas a si mesmo. Aparece, não custa lembrar, quando é acionado.

Há, sim, em certos nichos da cobertura e da análise política, uma torcida pela derrota de Messias. Só assim o Senado exerceria a sua prerrogativa, dizem esses. Apele-se a outro clichê que segue com força: é o jogo do “quanto pior, melhor”. Raramente vi aposta tão determinada na desordem que supostamente restauraria a ordem pela via do colapso. É um disparate.

E sabem o que é curioso: caso haja algum sinal de que Lula pode estar em processo de recuperação de alguns pontinhos de popularidade, as apostas temerárias podem se exacerbar. Afinal de contas, desde sempre se está a disputar uma partida de um jogo bem conhecido: o jogo eleitoral.

Ah, sim: vou ficar com a caneta pronta: cobrarei coerência de todo aquele que, na sabatina desta quarta, acusar o tribunal de não ser, como é mesmo?, autocontido. O primeiro dessa turma que, futuramente, recorrer à Corte cobrando uma intervenção nos múltiplos embates da vida pública será aqui chamado de hipócrita e picareta. Afinal, como se sabe, intervenção boa é aquela com a qual se concorda e imprópria aquela de que se discorda. Que Messias passe uma mensagem clara e, a exemplo de Paulo, faça a flauta soar com flauta e a cítara como cítara.

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