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Psicólogas explicam por que pessoas estragam relações saudáveis
Especialistas explicam por que algumas pessoas sentem desconforto quando vivem um relacionamento tranquilo, como na série Ninguém Quer
atualizado
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Às vezes, as pessoas estão tão acostumadas com relacionamentos turbulentos que, ao se deparar com fases ou novos relacionamentos saudáveis, ficam esperando pela “crise”. Na série da Netflix Ninguém Quer, o relacionamento de Noah e Joanne, interpretados por Adam Brody e Kristen Bell, está passando por uma boa fase, até que a irmã da protagonista questiona quando irá acabar a “lua de mel”.
A psicóloga Luanna Debs, especialista em relacionamentos, aponta que, em muitas situações, procurar defeitos em uma relação estável e segura é uma forma inconsciente de se proteger.

“Quando alguém viveu relações instáveis ou experiências em que o amor vinha acompanhado de dor, por exemplo, o sistema emocional aprende a esperar o pior. Então, diante de algo que parece seguro, surge a necessidade de testar, controlar ou prever o que pode dar errado, como se preparar para a perda fosse uma forma de evitar o sofrimento”, explica.
Para a expert, é uma tentativa de manter o controle diante da incerteza. “O paradoxo é que, ao buscar prever a dor, acabamos a antecipando.”
Por que não aceitamos a calmaria dos relacionamentos?
Para Luanna, fomos ensinados, por meio da cultura do amor romântico, que um amor de verdade é intenso, causa sofrimento, é arrebatador e precisa de lutas e de enfrentar desafios. “Isso faz com que a paz, a calmaria e a estabilidade de uma relação saudável pareça indiferença, frieza, falta de amor ou uma relação sem graça.”
Além disso, a psicóloga destaca que quem cresceu em ambientes nos quais o afeto estava misturado à tensão ou à imprevisibilidade pode ficar desconfortável com o sossego.
“Quando o vínculo não desperta ansiedade, ele pode parecer ‘fraco’, quando na verdade é apenas seguro. Aceitar a calmaria dentro de uma relação e enxergar amor na paz exige reeducar as pessoas fora da cultura do amor romântico e também reeducar o cérebro e o sistema emocional para reconhecer a segurança como um lugar possível de amor”, defende Luanna.
A psicóloga Cleidiane Souza explica que a ausência de conflitos pode parecer estranha no começo, como se algo estivesse faltando, como se não tivesse amor o suficiente ali, porque parece tudo “muito bem” para ser verdade.
“O problema é que muitas pessoas confundem intensidade com amor, e acabam buscando relações que ativem o medo e a adrenalina, não a paz”, salienta Cleidiane.
Como sair do ciclo de buscar o “caos” no relacionamento?
O primeiro passo, segundo as profissionais, é entender porque se busca o caos, compreendendo o padrão aprendido como forma de buscar segurança e controle. “Aprender sobre o que é o amor saudável pode contribuir para desenvolver novas formas de enxergar as relações”, acrescenta Luanna.
Luana ainda prossegue: “Sair do ciclo é um processo de reeducação emocional: deixar que o corpo aprenda que segurança não é ameaça e que o amor pode e deve ser calmo sem ser morno, apesar dos desafios.”

Já Cleidiane sugere que reconhecer o padrão é essencial. “Entender que essa busca pelo caos não é sobre o outro, é sobre você. É o seu emocional repetindo o que já conhece, mesmo que doa.”
“Depois, é importante aprender a se autorregular: lidar com o desconforto de estar em um vínculo tranquilo, sem sabotar o que é bom só porque parece diferente”, reforça. “Sair desse ciclo é reeducar a mente, é entender que o amor não precisa te causar medo para ser verdadeiro.”


























