Pouca vergonha

Mulher que trabalha em famoso bordel da Europa fala sobre a rotina

Catherine De Noire entrou no setor ainda na graduação e afirma usar sua formação acadêmica para desafiar estereótipos

atualizado

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Reprodução/Redes Sociais
Catherine De Noire
1 de 1 Catherine De Noire - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Aos 32 anos, Catherine De Noire divide a rotina entre a vida acadêmica e um trabalho pouco convencional. Doutoranda em psicologia, ela também é responsável pela administração de um dos maiores bordéis legalizados da Europa — função que exerce há cerca de uma década.

Segundo Catherine, o cargo ainda desperta muitas ideias equivocadas nas pessoas. Em entrevista ao jornal britânico Daily Star, ela contou que o imaginário popular costuma retratar gerentes de bordéis como figuras extravagantes e suspeitas. “Muita gente imagina homens cobertos de joias, fumando charutos ou cercados por armas e drogas. Outros pensam em uma madame mais velha, sempre fumando e que já trabalhou como prostituta”, disse. “Quando me conhecem, uma mulher comum na casa dos 30 anos que também pesquisa o trabalho sexual, ficam surpresos.”

O interesse pela área surgiu quando Catherine ainda cursava a graduação em Psicologia, aos 22 anos. Na época, ela leu uma reportagem sobre a gestão de um bordel legalizado em Amsterdã, na Holanda, e ficou fascinada com o modelo de funcionamento. “O texto explicava que o negócio podia ser conduzido de forma ética, com autonomia total das trabalhadoras. Elas escolhem com quem querem atender, quanto cobram e quais horários preferem trabalhar”, relembrou.

Nesse modelo, o estabelecimento não retém parte do dinheiro obtido pelas profissionais. As trabalhadoras pagam apenas o aluguel do quarto utilizado para os atendimentos, mantendo o restante do valor recebido pelos serviços. “Quando terminei de ler aquela reportagem, percebi que queria trabalhar nesse meio”, contou.

Foto de uma das ruas do Red Light District, em Amsterdã, em que mostra um prostíbulo com luzes vermelhas acesas e uma garota de programa usando lingerie branca que reflete na luz neon
Garotas e garotos de programa ficam expostos em vitrines pela cidade de Amsterdã

Ao começar a atuar no setor, Catherine também precisou lidar com situações que inicialmente a surpreenderam. Uma delas foi descobrir que mãe e filha trabalhavam no mesmo clube, em quartos vizinhos. “Minha reação inicial foi imaginar como seria se fosse comigo e minha mãe, o que achei extremamente constrangedor”, disse.

Com o tempo, porém, ela afirma ter aprendido a não julgar escolhas pessoais a partir de seus próprios valores. “Só porque algo não seria confortável para mim não significa que os outros não possam viver dessa forma. Elas não estavam fazendo nada ilegal e pareciam totalmente à vontade com a situação”, afirmou. Segundo Catherine, após dez anos de convivência, ela percebeu que as duas mantêm uma relação baseada em confiança e amizade.

Além da administração do bordel, Catherine também usa sua formação acadêmica para discutir os estigmas que cercam a indústria do entretenimento adulto. Para ela, muitas percepções sobre o trabalho sexual são baseadas em estereótipos.

“As pessoas imaginam cenários de violência, exploração e clientes perigosos. Essas situações existem, mas costumam ocorrer em contextos onde o trabalho sexual é ilegal e não há qualquer tipo de regulamentação”, explicou.

Na Europa, segundo ela, o setor é regulamentado e fiscalizado. “Estabelecimentos como o nosso passam por inspeções frequentes relacionadas à higiene, segurança e condições de trabalho. Há visitas regulares da polícia, cooperação com organizações não governamentais e as trabalhadoras pagam impostos e contam com proteção legal”, afirmou.

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