
Mirelle PinheiroColunas

Territórios: como facções avançam e impactam a economia e a política
O controle de territórios permite explorar serviços, comércio, economia informal e até atividades legais, ampliando o alcance e o poder
atualizado
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O avanço das facções criminosas no Brasil, e a forma como esses grupos passaram a influenciar territórios, economias e até decisões políticas, volta ao debate com a estreia da série documental “Territórios – Sob o Domínio do Crime”, lançada nesta quinta-feira (30/4).
A produção, que marca o centésimo documentário original do Globoplay, traça um retrato do momento em que o crime organizado deixa de ser apenas um fenômeno ligado ao tráfico de drogas e passa a atuar como estrutura de poder territorial.
Ao longo de seis episódios, a série sustenta uma tese que há anos mobiliza especialistas em segurança pública: o domínio de territórios se tornou a principal fonte de força das facções, com impacto direto na vida cotidiana da população e na capacidade de atuação do próprio Estado. Alguns dos casos foram abordado ao longo do último ano na coluna.
Um mapa invisível do crime
Com mais de um ano de apuração, a produção percorreu 27 cidades em sete estados brasileiros, além do Distrito Federal e três países da América Latina, reunindo mais de 110 entrevistas com autoridades, investigadores, especialistas, vítimas e moradores de áreas afetadas.
O resultado é o que os produtores definem como um “mapa invisível”, uma rede de influência construída ao longo de décadas por organizações como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que hoje operam de forma integrada, dentro e fora do país.
Um dos pontos tratados na série é o funcionamento interno dessas organizações. Em uma das entrevistas exclusivas, o traficante Fernandinho Beira-Mar, preso no sistema penitenciário federal, descreve a lógica de funcionamento das facções.
Guerra nas ruas
A série também traz imagens inéditas de uma das operações policiais mais marcantes dos últimos anos, realizada nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, em outubro de 2025.
Com acesso a câmeras corporais de policiais, o documentário mostra a intensidade dos confrontos, o avanço armado das facções e os riscos enfrentados pelas forças de segurança. Ao mesmo tempo, abre espaço para o outro lado da história, com os moradores e famílias afetadas pela violência.
Muito além do tráfico
Outro eixo importante da produção é a diversificação das atividades criminosas. A série mostra que, hoje, o tráfico de drogas já não é a única, e não necessariamente a principal, fonte de renda das facções.
O controle de territórios permite explorar serviços, comércio, economia informal e até atividades legais, ampliando o alcance e o poder dessas organizações.
Além disso, a produção aborda temas como a corrida armamentista e o uso de fuzis, a expansão internacional das facções, a atuação em áreas sensíveis, como terras indígenas, e a relação entre crime organizado e corrupção.
Crime e poder
No episódio final, a série avança sobre a relação entre facções e política. A investigação sugere que a corrupção se tornou uma ferramenta estratégica para a manutenção do poder e da influência desses grupos.
Especialistas ouvidos ao longo da produção, como o ex-ministro Ricardo Lewandowski, o promotor Lincoln Gakiya e o ex-secretário de segurança José Mariano Beltrame, reforçam que o enfrentamento ao crime organizado exige mais do que ações pontuais.
