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Mirelle Pinheiro

SUS libera psicólogo para mulher com depressão que morreu há 2 anos.

A mulher, que trabalhava com serviços gerais em uma empresa terceirizada, tinha 58 anos quando morreu

09/09/2026 04:20
Material cedido ao Metrópoles
SUS libera psicólogo para mulher com depressão que morreu há 2 anos

Esta matéria contém conteúdo que pode ser sensível para algumas pessoas.

A servidora da Defensoria Pública de Mato Grosso Janaiara Soares usou as redes sociais para denunciar a demora no atendimento psicológico da rede pública de saúde de Cuiabá (MT). A mãe dela, Sidelia Paula da Silva, que tinha diagnóstico de depressão, morreu em 2024. Dois anos depois, em julho deste ano, a família recebeu uma mensagem da Secretaria Municipal de Saúde informando que a consulta psicológica solicitada àquela época havia sido autorizada.

“A depressão matou minha mãe, mas o sistema público de saúde de Cuiabá também tem culpa. Amanhã faz dois anos que a minha mãe tirou a própria vida e no mês passado nós recebemos uma mensagem dizendo que ela vai poder passar por um psicólogo. Consulta essa que foi solicitada meses antes do ocorrido”, afirmou Janaiara.

Em entrevista à coluna, a servidora contou que a mãe inicialmente se recusou a buscar tratamento pela rede privada. Segundo ela, Sidelia acreditava que “depressão e beber remédio era coisa de gente doida”. Depois de muita insistência da família, aceitou fazer o acompanhamento, mas somente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A mulher, que trabalhava com serviços gerais em uma empresa terceirizada, tinha 58 anos quando morreu. Segundo a filha, à época, ela chegou a passar pelo posto de saúde, foi atendida por um clínico e recebeu o encaminhamento para acompanhamento psicológico. Após isso, o pedido entrou na rede de regulação do município.

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“Mesmo sabendo que o tratamento não garante que ela não atentaria contra a própria vida, o sentimento é terrível, de tristeza, impotência, e de sofrimento por saber que a gente fica à mercê de um sistema de saúde que é lindo nas propagandas, mas que não funciona”, afirmou Janaiara.

A demora no atendimento também ganhou um peso ainda maior para a família porque, segundo Janaiara, Sidelia tinha planos para o futuro. Ela estava a cerca de um mês de se casar na igreja com o marido.

“A gente saiu de um período de preparação de felicidade, para um luto inexplicável. Principalmente eu, meu pai e meu irmão. E, após dois anos, receber esta mensagem é como reviver todo o sentimento novamente.”

Tratamento

A psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim afirmou à coluna que a depressão precisa ser levada a sério e não deve ser confundida com uma tristeza passageira.

“Não é simplesmente uma tristeza que vai passar. É uma condição que pode comprometer o funcionamento da pessoa, o sono, a alimentação, a concentração, os relacionamentos e até a capacidade de realizar atividades básicas do dia a dia”, explicou.

Segundo a especialista, nem todo quadro depressivo representa uma emergência médica. A situação se torna urgente principalmente diante de sinais como ideação suicida, planejamento de suicídio, tentativa prévia, sintomas psicóticos ou comprometimento importante do funcionamento.

“Quando o tratamento é adiado, o sofrimento pode se intensificar. A pessoa vai se isolando, perde o interesse pelas coisas, deixa de fazer atividades que antes davam prazer e começa a enxergar aquela situação como se ela fosse permanente”, afirmou.

Juliana explica que identificar o quadro e iniciar o cuidado adequado o quanto antes pode ajudar a interromper esse ciclo. Para ela, o acompanhamento psicológico também oferece um espaço para que a pessoa consiga falar sobre sofrimentos que muitas vezes não consegue compartilhar com outras pessoas.

“Uma pergunta direta pode abrir espaço para que ela finalmente fale sobre um sofrimento que estava sendo vivido em silêncio. O acesso rápido também faz diferença. Em uma crise, a pessoa pode estar tão fragilizada que não consegue esperar semanas ou meses por um atendimento. Por isso, precisamos de uma rede que consiga acolher, avaliar o risco e encaminhar essa pessoa para o tratamento adequado, tanto na saúde pública quanto na rede privada.”

Ajuda

Pessoas que estejam passando por sofrimento emocional podem procurar o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, onde voluntários oferecem atendimento gratuito e sigiloso. A iniciativa integra as ações do Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio que, neste ano, tem como tema “Escutar é estar presente”.

A coluna procurou a Secretaria de Saúde de Cuiabá mais de uma vez para esclarecer a demora no atendimento e questionar a autorização da consulta após a morte de Sidelia. Até a última atualização desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.

SUS libera psicólogo para mulher com depressão que morreu há 2 anos