
Mirelle PinheiroColunas

Quem são “rauls, tripeiros e conteiros” em rede milionária de golpes
A engrenagem criminosa, instalada em São Paulo, movimentou cerca de R$ 100 milhões ao longo de cinco anos
atualizado
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As investigações da Polícia Civil de São Paulo acerca do esquema de estelionato digital em larga escala consolidado no estado revelaram que o grupo criminoso por trás das fraudes tem estrutura coordenada, com divisão de papéis.
Cada função desempenhada dentro da rede fraudulenta faz com que o criminoso receba um nome relacionado à sua atribuição.
- Conforme aponta a Polícia Civil de São Paulo, “Raul” é o nome dado ao estelionatário que deteêm o “know how” criminoso, o qual, por sua vez, é responsavel por ludibriar vítimas, através de engenharia social, bem como fraudar documentos e sistemas eletrônicos, e ainda praticarem todos os outros atos típicos daqueles comumente chamados de “golpe”.
- Já o “Tripeiro” é o nome dado àquelas pessoas cuja função é procurar e aliciar pessoas dispostas a emprestar as suas contas para a movimentação de valores obtidos ilicitamente pelos “Rauls”.
- “Conteiros” são os indivíduos que emprestam suas contas bancárias, comumente chamados de “Laras” e “laranjas”, para que nelas sejam movimentados os valores obtidos ilicitamente pelos “Rauls”. A recompensa financeira obtida por eles pode ser negociada das mais diversas maneiras, como por exemplo um valor fixo por movimentação, ou ainda uma porcentagem sobre os valores movimentados na conta, o que geralmente é acordado entre 5% a 10% sobre o valor movimentado.
Os “Tripeiros” também gerenciam os “Conteiros”, que aceitam emprestar suas contas bancárias mediante recompensa financeira.
Segundo a Polícia Civil, há uma nítida divisão de patamares entre os criminosos que fazem parte de um grupo formado pelos golpistas. Os “Rauls”, normalmente, permanecem com cerca de R$ 90% dos valores obtidos, sendo o restante dividido entre os “Tripeiros” e “Conteiros”.
Neste caso, embora exista uma nítida divisão de tarefas, a investigação aponta que, em geral, não há o que se falar em crime organização criminosa, uma vez que não há hierarquia entre os membros do grupo.
Isso porque, embora os autores intelectuais dos crimes sejam os “Rauls”, os “Trripeiros” e “Conteiros” agem como terceirizados ou como uma espécie de prestadores de serviços que vendem seu trabalho após tratativas e negociações, não havendo, portanto, o chamado “poder de mando” e obediência de ordens.
A operação
No fim de fevereiro, o Departamento de Investigações Criminais (Deic) da Polícia Civil de São Paulo deflagrou a operação “Fim da Fábula”, que investiga o esquema de golpes em larga escala.
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) identificou pelo menos 36 imóveis vinculados aos investigados, além de centenas de veículos e embarcações, muitos registrados em nome de laranjas ou empresas fictícias.
Também foram determinados bloqueios de bens móveis e imóveis, além de restrição judicial sobre 86 contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas, com limite de até R$ 100 milhões por conta.
No dia da operação, foram cumpridos 120 mandados de busca e apreensão e 53 mandados de prisão temporária, além do bloqueio judicial de R$ 100 milhões em bens dos investigados.
Cerca de 400 policiais civis e promotores de Justiça participaram da operação, realizada simultaneamente em São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal.
