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Mirelle Pinheiro

Protetora ou carrasca? Quem é a ex-secretária presa por matar animais

A investigação aponta que, por trás da imagem de defensora dos animais, existiria um esquema de eutanásias irregulares de cães e gatos

15/06/2026 13:14
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ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas (RS), Paula Lopes

A ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas (RS), Paula Lopes (foto em destaque), construiu sua imagem pública como uma das principais defensoras da causa animal no estado. Nas redes sociais, aparecia ao lado de cães e gatos resgatados, promovia campanhas de arrecadação e compartilhava histórias de animais com deficiência que, segundo ela, haviam sido salvos por seu trabalho.

Nesta segunda-feira (15/6), porém, a protetora foi presa preventivamente durante a segunda fase da Operação Carrasco, da Polícia Civil do Rio Grande do Sul.

A investigação aponta que, por trás da imagem de defensora dos animais, existiria um esquema de eutanásias irregulares de cães e gatos associado à arrecadação de dinheiro por meio de campanhas de PIX para tratamentos que, segundo a polícia, nunca chegaram a ocorrer.

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Ex-secretária de Bem-Estar Animal é presa por “eutanásia via Pix”
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Ex-secretária de Bem-Estar Animal é presa por “eutanásia via Pix”

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A prisão ocorreu por volta das 6h, na sede do instituto que leva o nome da ex-secretária, na zona sul de Porto Alegre.

Além dela, também foram presos os veterinários Tainara Harth, que atuou como responsável técnica da Secretaria de Bem-Estar Animal durante sua gestão, e Marcos Vinicius Jenisch, proprietário de uma clínica veterinária na capital gaúcha. Eles são investigados por maus-tratos a animais e associação criminosa.

Outros três veterinários tiveram os passaportes apreendidos por decisão judicial e ficaram impedidos de deixar o país. O marido de Paula Lopes também teve o documento recolhido.

A polícia ainda cumpriu 12 mandados de busca e apreensão, incluindo diligências em clínicas veterinárias que teriam sido utilizadas para a realização das eutanásias investigadas.

Investigação

As suspeitas surgiram quando usuários e servidores da Secretaria Especial de Bem-Estar Animal de Canoas passaram a relatar um número considerado anormal de mortes de animais.

A primeira fase da Operação Carrasco foi deflagrada em setembro de 2025. Após analisar documentos, prontuários e materiais apreendidos, a Polícia Civil concluiu que o volume de eutanásias realizadas durante a gestão de Paula Lopes era muito superior ao registrado em anos anteriores.

Segundo a investigação, pelo menos 498 cães e gatos foram submetidos à eutanásia em apenas oito meses de administração da ex-secretária.

Na ocasião, Paula e Tainara já haviam sido indiciadas. A Polícia Civil classificou o cenário encontrado como uma “matança desmedida”.

Como funcionava o esquema

De acordo com os investigadores, a segunda fase da operação revelou que o esquema não se limitava à estrutura da secretaria municipal.

A polícia afirma que Paula utilizava sua imagem de protetora para captar recursos junto ao público enquanto autorizava a morte de animais que ainda possuíam possibilidade de tratamento.

Em um dos casos analisados, uma veterinária informou sobre a suspeita de cinomose em uma cadela e questionou se seria realizado o exame necessário para confirmar o diagnóstico.

Segundo a investigação, a orientação recebida foi para seguir diretamente com a eutanásia, sem a realização do teste.

No mesmo período, a ex-secretária teria publicado nas redes sociais pedidos de ajuda financeira para custear justamente o tratamento daquele animal.

Para os investigadores, a situação evidencia uma contradição entre a narrativa apresentada ao público e o destino efetivo dos animais.

Outro episódio envolve um cão com suspeita de esporotricose. Conforme a apuração, uma veterinária informou que havia possibilidade de tratamento. Ainda assim, a resposta atribuída à investigada teria sido para fazer “o que tem que ser feito”, expressão interpretada pelos policiais como autorização para a eutanásia.

Animais como “isca emocional”

Segundo a polícia, a exoneração de Paula Lopes da secretaria, em julho de 2025, não interrompeu as atividades investigadas.

Os trabalhos teriam continuado por meio de sua associação privada.

Durante o cumprimento dos mandados nesta segunda-feira, os agentes encontraram um cão debilitado, sem as patas dianteiras, que aparecia frequentemente em campanhas de arrecadação divulgadas nas redes sociais.

A Polícia Civil também apura o destino de centenas de animais que passaram pelo instituto.

Levantamento dos investigadores aponta que, desde 2020, foram realizadas 549 campanhas de arrecadação ligadas à entidade, que recebeu R$ 672.670,39 em doações de 14.545 pessoas.

“A morte de cada cão não era um ato de piedade, mas um ato de lucro. A polícia agora busca os registros de microchip de todos os animais que sumiram para tentar identificar quantas vidas foram sacrificadas em nome de PIX”, afirmou a delegada Luciane Bertoletti.

O diretor da 2ª Delegacia Regional Metropolitana de Canoas, delegado Cristiano Reschke, afirmou que o caso revelou uma exploração da confiança de milhares de pessoas que contribuíram financeiramente acreditando ajudar animais em situação de vulnerabilidade.

“O que a Operação Carrasco desvendou foi um cenário de crueldade extrema e manipulação perversa da solidariedade pública. A investigada utilizava o sofrimento dessas criaturas como isca emocional para um esquema de estelionato financeiro. Enquanto o público doava recursos acreditando financiar a cura e o bem-estar, nos bastidores a ordem era a eliminação sumária para maximizar o lucro”, declarou.