
Mirelle PinheiroColunas

Polícia expõe como CV se infiltrou na polícia e na política do Rio
O inquérito mapeou, segundo os investigadores, um mecanismo sofisticado que sustenta a atuação da organização criminosa no estado
atualizado
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A Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ) deflagrou, nessa quarta-feira (11/3), uma megaoperação para desarticular uma estrutura de poder atribuída ao Comando Vermelho (CV) que envolveria lavagem de dinheiro, corrupção policial, infiltração política e controle econômico em comunidades dominadas pela facção.
A ação é resultado de investigação conduzida pelos delegados Pedro Cassundé e Vinicius Miranda de Moraes, da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD).
O inquérito mapeou, segundo os investigadores, um mecanismo sofisticado que sustenta a atuação da organização criminosa no estado.
O foco principal da investigação é Edgar Alves de Andrade, conhecido como “Doca da Penha”, “Urso” ou “Paraíba”, apontado como um dos principais líderes do Comando Vermelho e responsável pela articulação das operações da facção nas ruas.
De acordo com a polícia, Doca exerce a função de “1ª Voz das Ruas”, atuando como porta-voz executivo da cúpula da organização.
Estatuto e estrutura formal
Segundo o inquérito, o Comando Vermelho possui estrutura interna formalizada, com conselho deliberativo, cargos definidos, divisão de funções, procedimentos decisórios e até um regime disciplinar.
Esse modelo estaria descrito em um estatuto interno da facção, que chegou a ser enviado por Doca ao Primeiro Comando da Capital (PCC) durante negociações de paz entre facções em fevereiro de 2025 — episódio noticiado anteriormente pela coluna.
Para os investigadores, o documento demonstra que a organização opera com uma estrutura que se assemelha a um sistema corporativo.
A cúpula do crime
A investigação identificou uma espécie de tríade de comando dentro da facção.
No topo estaria Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, apontado como presidente do Conselho Permanente do CV e atualmente preso em presídio federal.
A estrutura também inclui Luciano Martiniano da Silva, conhecido como Pezão, responsável pela tesouraria da organização, e Edgar Alves de Andrade, o Doca, responsável por articular as ações nas ruas.
Mesmo encarcerado, Marcinho VP continuaria exercendo influência sobre as decisões da facção. Segundo a polícia, as comunicações seriam intermediadas pela esposa, Márcia Gama dos Santos Nepomuceno, e pelo sobrinho Landerson Lucas dos Santos, que atuariam como transmissores de ordens.
Advogados, familiares e operadores externos também seriam utilizados como canais de comunicação entre a liderança presa e as células criminosas em atividade.
Corrupção policial
A investigação também apontou um episódio grave de corrupção envolvendo agentes públicos.
Segundo o inquérito, um major da Polícia Militar teria solicitado cerca de 70 quilos de maconha ao tráfico para simular uma apreensão policial.
A coluna apurou que o oficial é Hélio da Costa Silva, então comandante da 13ª UPP do 16º BPM, na Vila Cruzeiro.
De acordo com a polícia, o militar teria procurado o traficante Washington Cesar Braga da Silva, conhecido como “Grande”, para obter a droga que seria apresentada como resultado de uma operação policial.
A apreensão forjada foi registrada na 22ª Delegacia de Polícia (Penha), em março de 2025.
Além do major, outros quatro policiais militares também são investigados por participação no esquema.
O inquérito descreve um vínculo “sistemático e recorrente”, que incluiria pagamento de propinas e troca de informações para garantir tolerância policial em áreas dominadas pela facção.
Monopólio econômico nas comunidades
Outro eixo da investigação aponta o controle econômico exercido pelo CV em territórios dominados pela organização.
Segundo a polícia, a facção mantém monopólio de serviços como internet clandestina, TV a cabo e telecomunicações, explorados de forma violenta nas comunidades.
Esse sistema funcionaria como um braço financeiro da organização criminosa, responsável por gerar recursos para financiar a compra de armas, o pagamento de integrantes e a expansão territorial do grupo.
Na comunidade da Gardênia Azul, essa estrutura seria administrada por Elder de Lima Landim, conhecido como “Dom”.
Ele seria responsável pela arrecadação de valores provenientes de serviços clandestinos, cobrança de taxas de comerciantes, controle de aluguel e venda de imóveis e outros negócios ilegais.
Dom foi morto em maio de 2025, em circunstâncias que a polícia considera compatíveis com possível eliminação interna.
Suspeita de infiltração política
O inquérito também levanta suspeitas de infiltração política em áreas dominadas pela facção.
Segundo a investigação, o vereador Salvino de Oliveira Barbosa (PSD) teria recebido autorização do Comando Vermelho para atuar politicamente na Gardênia Azul.
Mensagens analisadas pelos investigadores indicariam que lideranças da facção ofereceriam apoio logístico e influência local para projetos políticos do parlamentar.
Para a polícia, o cenário pode indicar uma relação de troca de favores, na qual o grupo criminoso manteria o controle territorial enquanto o político obteria apoio eleitoral dentro da comunidade.
Expansão territorial
A investigação também aponta que o Comando Vermelho ampliou significativamente sua presença no estado.
Segundo a polícia, a facção expandiu seu domínio para mais de 40 favelas nos últimos três anos.
Parte desse avanço teria ocorrido por meio de invasões armadas, enquanto outras áreas teriam sido incorporadas após negociações com milícias ou grupos criminosos locais.
Um mapa encontrado pelos investigadores indicava 13 comunidades nas regiões de Vargem Grande e Vargem Pequena.
De acordo com a apuração policial, 12 dessas áreas passaram posteriormente ao domínio do Comando Vermelho.
