
Mirelle PinheiroColunas

Polícia aponta ligação direta entre vereador preso no Rio e Doca do CV
Investigações apontam que Salvino Oliveira mantém conexões com uma estrutura financeira suspeita de atuar na lavagem de dinheiro para o CV
atualizado
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Uma investigação da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) identificou em trocas de mensagens entre Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, e Elder de Lima Landim, o Dom, então “síndico da Gardênia Azul”, referências diretas ao vereador Salvino de Oliveira Barbosa (PSD) e a outros alvos da operação Red Legacy, deflagrada na quarta-feira (11/3).
A apuração foi iniciada em 2024 pela Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro, vinculada ao Departamento-Geral de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro.
Para os investigadores, o conteúdo dos diálogos passou a ser considerado elemento relevante para o avanço das apurações, que começou a partir da análise de empresas de exploração de internet instaladas no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio. As companhias seriam controladas por Doca.
Movimentações financeiras suspeitas
Em paralelo, uma investigação financeira sigilosa apontou movimentações consideradas atípicas envolvendo o vereador.
De acordo com dados de inteligência financeira, Salvino teria recebido valores provenientes de uma empresa de informática localizada no Complexo da Maré, região dominada pelo CV.
Segundo a polícia, não foram encontradas justificativas aparentes para as transferências.
Em apenas quatro meses, as análises indicam que o vereador recebeu mais de R$ 100 mil em créditos considerados suspeitos, incluindo 11 depósitos em dinheiro vivo.
As informações foram reunidas em Relatório de Inteligência Financeira produzido a partir de dados solicitados durante a investigação.
Estrutura financeira investigada
As apurações também alcançaram pessoas próximas ao parlamentar. Dados de inteligência levantados ao longo da apuração apontaram movimentações suspeitas envolvendo empresas que têm como sócio o principal assessor do vereador.
Segundo a polícia, a esposa do assessor foi identificada como possível peça central de uma estrutura financeira complexa que estaria sendo usada para ocultar valores.
Em um período de sete meses, ela teria realizado mais de 20 saques em espécie, somando cerca de R$ 2,49 milhões, com retiradas que chegavam a aproximadamente R$ 100 mil por operação e, em alguns casos, feitas em dias consecutivos.
Uma das empresas registradas em nome dela também chamou a atenção dos investigadores. Em pouco mais de dois anos, a companhia movimentou mais de R$ 35 milhões, valor considerado incompatível com o faturamento declarado, de cerca de R$ 2 milhões.
Entre os valores identificados, R$ 300 mil teriam sido enviados por uma fintech investigada por possíveis ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Tentativa de burlar fiscalização
Outro ponto destacado pelos investigadores envolve saques fracionados. Foram identificadas quatro retiradas de R$ 49.999,99, valor logo abaixo do limite de R$ 50 mil, que obriga instituições financeiras a realizar comunicação automática aos órgãos de controle.
Somente nas contas pessoais da esposa do assessor, a movimentação identificada ultrapassou R$ 3 milhões em pouco mais de dois anos, valor considerado incompatível com a renda declarada.
A investigação também aponta que o assessor do vereador seria sócio de uma empresa que recebeu R$ 390 mil em duas transferências sem justificativa comercial aparente e posteriormente enviou mais de R$ 1 milhão para outra companhia.
Além disso, ele figura como sócio-diretor de uma empresa cujo sócio-presidente é filho do traficante Elias Maluco, morto em 2020 e conhecido por ter sido condenado pelo assassinato do jornalista Tim Lopes.
Prisão
Diante do conjunto de indícios reunidos, a Polícia Civil solicitou a prisão temporária do vereador. Segundo os investigadores, a medida foi considerada necessária para preservar provas e garantir o avanço das investigações, diante do risco de destruição de evidências ou interferência no andamento do inquérito.
A representação foi analisada pelo Ministério Público e autorizada pela Justiça.
Em nota, a Polícia Civil do Rio de Janeiro afirmou que mantém o compromisso com o sigilo das investigações e com a preservação dos dados de investigados e demais pessoas relacionadas aos inquéritos em andamento.






