PF revela códigos usados para esconder fraude nas Americanas
Segundo a PF, a adoção de novos codinomes ao longo dos anos teria contribuído para naturalizar as práticas ilegais dentro da empresa

A Polícia Federal (PF) identificou que os envolvidos nas fraudes contábeis investigadas na Americanas utilizavam uma linguagem própria para se referir às manipulações financeiras e aos lançamentos considerados irregulares.
Segundo a decisão da Justiça Federal à qual a coluna teve acesso, expressões como “verdes e vermelhos”, “versão 0”, “a vida como ela é” e “kit de fechamento” faziam parte do vocabulário interno empregado para operacionalizar as alterações nos balanços da companhia ao longo de anos.
A revelação consta da decisão que embasou a segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada pela Polícia Federal em junho deste ano.
Na ocasião, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo, e a Justiça autorizou o bloqueio de até R$ 54 bilhões em bens e ativos.
Diferentemente da primeira etapa da investigação, voltada aos ex-executivos da varejista, a nova fase busca apurar a eventual participação de acionistas de referência e de representantes de instituições financeiras nas supostas fraudes investigadas.
Entre no canal de WhatsApp da Coluna Mirelle PinheiroAs investigações da PF apontam que, por mais de uma década, balanços financeiros da empresa teriam sido manipulados para ocultar dívidas, melhorar artificialmente indicadores financeiros e apresentar ao mercado uma situação econômica mais favorável do que a real.
Segundo a investigação, parte dessas manipulações envolvia operações de risco sacado e lançamentos fictícios relacionados às chamadas Verbas de Propaganda Cooperada (VPC), permitindo que o endividamento da companhia fosse subestimado nas demonstrações financeiras.
O escândalo veio à tona em janeiro de 2023, quando a própria Americanas divulgou um fato relevante informando inconsistências contábeis bilionárias, episódio que culminou na recuperação judicial da empresa e na abertura das investigações criminais.
“Verdes e vermelhos”
De acordo com a decisão, a Polícia Federal descreve que um dos documentos internos mais importantes para a execução das fraudes era conhecido como “verdes e vermelhos”.
Segundo os investigadores, tratava-se de um relatório que reunia as expectativas de analistas de mercado de instituições financeiras sobre indicadores como lucro e margem líquida.
Ainda conforme a PF, essas projeções eram utilizadas pelos responsáveis pelos fechamentos contábeis para calcular o volume de ajustes que deveria ser realizado nos balanços, de forma que os resultados divulgados permanecessem alinhados às expectativas do mercado.
“Versão 0” e “a vida como ela é”
A decisão também reproduz mensagens internas analisadas pela Polícia Federal que mostram como os próprios funcionários diferenciavam os balanços reais daqueles que seriam posteriormente alterados.
Segundo a investigação, o primeiro demonstrativo contábil elaborado sem qualquer manipulação era chamado de “Versão 0” ou “V0”. A partir das versões seguintes — identificadas como V1, V2 e V3 — eram incorporados os ajustes apontados pela investigação como fraudulentos.
Em outro trecho citado na decisão, o então colaborador Marcelo Nunes faz referência ao “resultado na visão ‘a vida como ela é’”, expressão utilizada, segundo a PF, para identificar o desempenho real da companhia antes das alterações realizadas durante o fechamento contábil.
Já o conjunto de documentos que consolidava o fechamento mensal dos números era conhecido internamente como “kit de fechamento”, conforme descrito na investigação.
“Botões”, “oportunidades” e “alavancas”
Outro ponto destacado na decisão envolve a evolução dos nomes utilizados para se referir às cartas fictícias de Verba de Propaganda Cooperada (VPC), uma das frentes investigadas pela Polícia Federal.
Segundo depoimento da colaboradora Flávia Carneiro reproduzido na decisão, essas cartas eram inicialmente chamadas de “Cartas B”, em contraposição às “Cartas A”, que representavam documentos legítimos.
Posteriormente, os nomes teriam sido substituídos por expressões como “botões”, “oportunidades” e “alavancas”.
Conforme a Polícia Federal, a adoção de novos codinomes ao longo dos anos teria contribuído para naturalizar as práticas dentro da empresa e dificultar que funcionários de níveis inferiores identificassem a natureza das operações que executavam diariamente.





