
Mirelle PinheiroColunas

PF investiga manobras societárias no BRB após proposta ao Master
Relatórios internos do próprio BRB apontaram indícios de estruturas societárias consideradas atípicas
atualizado
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A Polícia Federal (PF) instaurou um inquérito para investigar suspeitas de manobras societárias envolvendo o Banco de Brasília (BRB) no contexto da tentativa de aquisição do Banco Master, apresentada em março do ano passado. A apuração tramita sob sigilo e foi comunicada ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo apuração da coluna, a investigação não questiona a saúde financeira do BRB. Técnicos e investigadores não levantam dúvidas sobre liquidez ou sustentabilidade do banco público.
O foco está em operações estruturais realizadas durante a gestão anterior, que teriam buscado contornar regras de transparência e limites legais de participação acionária.
Relatórios internos do próprio BRB apontaram indícios de estruturas societárias consideradas atípicas, usadas para ultrapassar, de forma dissimulada, os limites de concentração de ações por um mesmo grupo econômico.
Essas conclusões motivaram o aprofundamento das análises e, posteriormente, a abertura do inquérito policial.
Suspeita de elo com Daniel Vorcaro
As apurações também analisam possível envolvimento de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master – instituição liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025.
Vorcaro chegou a ficar preso por 12 dias e atualmente cumpre medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, no âmbito da Operação Compliance Zero.
O Master foi liquidado no mesmo dia em que a PF deflagrou a primeira fase da operação, que investiga supostas fraudes na venda de carteiras de crédito ao BRB, avaliadas em cerca de R$ 12 bilhões.
Exclusão bilionária de ativos
Em depoimento à Polícia Federal, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmou que a instituição excluiu R$ 51,2 bilhões dos R$ 75 bilhões inicialmente analisados em ativos e passivos do Banco Master, após auditorias realizadas durante as negociações.
Segundo Costa, o modelo de negócio nunca envolveu a compra integral do Master. Ele sustentou que o contrato previa cláusulas condicionantes rígidas, reorganização societária e retirada progressiva de ativos considerados problemáticos.
“O avanço da auditoria mostrou que não se tratava de absorver o banco, mas de excluir riscos relevantes. Um contrato que elimina mais de R$ 50 bilhões em ativos não pode ser tratado como operação de salvamento”, declarou.
Apesar de a negociação ter recebido aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o Banco Central vetou a operação meses depois.
Acareação expôs divergências
Durante acareação conduzida pela PF, Daniel Vorcaro afirmou que parte dos valores pagos pelo BRB por carteiras da empresa Tirreno não foi devolvida. O depoente também alegou surpresa com a liquidação do Master e dificuldades de liquidez diante de um volume elevado de resgates.
Investigadores questionam o destino dos recursos, já que Vorcaro declarou não ter feito pagamentos diretamente à Tirreno.
Parte da devolução teria ocorrido por meio da entrega de ativos – muitos deles, segundo a PF, de baixa liquidez ou sem lastro real, incluindo fundos sediados em paraísos fiscais, como Bahamas e Ilha de Jersey.
Paulo Henrique Costa rebateu, afirmando que a devolução poderia ocorrer por compensação com ativos, sem movimentação financeira direta. De acordo com a investigação, cerca de R$ 10 bilhões teriam sido devolvidos ao BRB dessa forma.
Após comandar o BRB por sete anos, Paulo Henrique Costa acabou afastado do cargo e, posteriormente, foi demitido. Nelson Antônio de Souza assumiu a presidência do banco.
O outro lado
Em nota, o BRB informou “que encontrou achados relevantes que constam da primeira etapa do relatório preliminar entregue pela auditoria forense contratada pelo banco junto à Machado & Meyer com suporte técnico da Kroll.
Prezando pela transparência e dever de colaboração com as autoridades competentes, a fim de confirmar eventuais atos ilícitos, o Banco BRB informa que entregou o relatório à Polícia Federal (PF), na última quinta-feira, 29/01/2026. O mesmo relatório também foi entregue na data de ontem, 02/02/2026, ao Banco Central.
Dando resposta ao quanto constatado na investigação independente, e com o intuito de resguardar seus interesses, recuperar seus créditos e ativos e ver ressarcidos os prejuízos causados pelos agentes relacionados à Operação Compliance Zero, o BRB informa que vem adotando inúmeras medidas institucionais, administrativas, extrajudiciais e judiciais relacionadas a fundos de investimentos, garantias e carteiras de crédito, adquiridas pelo BRB, medidas estas que correm, parte em sigilo, e que serão reforçadas por novas medidas, com a maior brevidade possível, para garantir a efetividade da preservação dos interesses do Banco.
Por fim, o BRB ressalta que segue sólido e reafirma seu compromisso com a preservação de seu patrimônio, de seus clientes e do desenvolvimento econômico e social de Brasília e região.”
