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Mirelle Pinheiro

MP vê misoginia e pede suspensão de delegado: "Prender essa vagabunda"

MP afirma que delegado acumulou denúncias de abuso, intimidação e violência contra mulheres; promotoria aponta padrão de conduta

07/07/2026 12:45
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Material cedido ao Metrópoles
Alexandre Henrique de Matos Lima

O Ministério Público de Roraima (MPRR) pediu à Justiça o afastamento cautelar do delegado da Polícia Civil Alexandre Henrique de Matos Lima (foto em destaque), titular da Delegacia de Polícia Interestadual (Polinter), sob o argumento de que ele teria utilizado reiteradamente o cargo e a estrutura policial para intimidar vítimas, colegas de trabalho e cidadãos.

A representação, obtida pela coluna, reúne investigações instauradas entre 2025 e 2026 e sustenta que os episódios apontam um padrão de abuso de autoridade, ameaças e violência psicológica.

Segundo o Ministério Público, o delegado é investigado por supostos crimes de injúria, abuso de autoridade, ameaça, constrangimento ilegal, violência psicológica contra a mulher, denunciação caluniosa e violência doméstica.

A promotora responsável afirma que os casos, analisados em conjunto, deixam de representar episódios isolados e passam a demonstrar “um quadro estrutural e reiterado de abuso de autoridade, misoginia institucionalizada e utilização do cargo e do aparato policial como instrumento de intimidação”.

A promotoria também destaca que o histórico funcional do delegado registra, desde 2005, ao menos 47 procedimentos administrativos e criminais relacionados a condutas como abuso de autoridade, ameaça, injúria, extorsão e desídia funcional.

Conforme o documento, muitos desses procedimentos terminaram arquivados, prescritos ou sem punição efetiva, circunstância que, na avaliação do MP, teria contribuído para uma escalada das condutas investigadas.

Xingamentos contra policial

O primeiro episódio descrito ocorreu em julho de 2025, no estacionamento da Delegacia-Geral. Segundo o processo, o delegado estacionou o veículo em uma vaga destinada a viaturas oficiais e foi orientado por uma agente de polícia a retirar o automóvel.

Conforme o relato da investigação, ele teria se recusado a se identificar, questionado como uma “novata” ousava abordá-lo e, dirigindo-se a outro policial, afirmou em voz alta: “Essa novata está pensando que está falando com quem? Ela tá doida? Eu vou mandar prender essa vagabunda.”

Ainda segundo os autos, ao ser questionado novamente sobre sua identidade, respondeu de forma irônica: “Você quer saber meu nome? É vovô.”

O Ministério Público afirma que o relato foi confirmado por uma testemunha presencial. O então delegado-geral adjunto também declarou que encontrou a policial em estado de forte abalo emocional logo após o episódio.

“Não conseguia nem falar e teve que se acalmar por aproximadamente um minuto, porque somente chorava e tinha dificuldade para respirar”, afirmou a autoridade em depoimento citado no processo.

Intimidação

Menos de um ano depois, conforme o Ministério Público, o delegado voltou a ser investigado após uma série de ocorrências em um condomínio residencial.

Segundo os autos, após uma discussão envolvendo o estacionamento do prédio, ele teria mobilizado cinco policiais armados e viaturas oficiais para tentar obter imagens internas do condomínio, embora o conflito tivesse natureza exclusivamente privada.

Nos dias seguintes, duas funcionárias relataram que foram ofendidas durante uma mudança.

De acordo com os depoimentos reproduzidos pelo MP, elas afirmaram ter sido chamadas de “vagabunda” e “filha da puta”. Uma delas também declarou que o delegado tomou o telefone funcional de suas mãos quando ela tentava acionar o síndico.

As duas mulheres disseram ainda que ele fazia questão de mencionar que possuía fuzis guardados no próprio veículo, circunstância que uma delas descreveu como “uma potencial ameaça à sua vida”.

Para a promotoria, chamou atenção o fato de o comportamento ter mudado quando o delegado passou a conversar com um homem que se identificou como general do Exército.

Segundo o MP, essa repetição de tratamento respeitoso a homens em posição hierárquica, em contraste com agressões dirigidas a mulheres durante o trabalho, reforçaria a hipótese de um padrão de comportamento.

Mobilização de policiais em hotel

Outro episódio citado ocorreu em um hotel de Boa Vista. Segundo o Ministério Público, o delegado teria iniciado uma discussão com um empresário hospedado no local, chamando-o repetidamente de “monstro” e “gigante”.

Quando a vítima pediu que cessasse a conduta, o delegado teria respondido que enviaria “as viaturas” ao hotel.

Conforme a investigação, cerca de dez a 15 policiais militares armados compareceram ao quarto do empresário após receberem a informação de que ele estaria armado e teria ameaçado matar o delegado.

O processo afirma, entretanto, que nenhuma arma foi encontrada e que funcionários do hotel informaram inexistirem câmeras no elevador onde os fatos teriam ocorrido.

Ainda segundo o MP, policiais militares ouvidos no inquérito relataram que o delegado afirmou, de forma falsa, já ter dado voz de prisão ao empresário, circunstância que manteve a equipe policial mobilizada até a chegada de um oficial superior.

A investigação afirma ainda que, posteriormente, o delegado modificou sua versão dos fatos ao alegar que o empresário teria tentado agredi-lo fisicamente, narrativa que, segundo o processo, não foi confirmada por testemunhas.

Em razão do episódio, o empresário interrompeu a viagem de trabalho e retornou antecipadamente para Manaus, arcando, segundo o MP, com uma nova passagem aérea de aproximadamente R$ 4 mil.

Violência doméstica

Além dos três episódios, o Ministério Público destaca que também tramita um inquérito para apurar violência doméstica supostamente praticada pelo delegado contra a esposa.

Conforme a representação, há medida protetiva de urgência vigente em favor da vítima.

MP pede afastamento

Na representação encaminhada à Vara de Garantias, a promotoria afirma que a permanência do delegado no cargo representa risco concreto à instrução das investigações e às vítimas.

O documento sustenta que ele possui acesso a sistemas policiais, poder hierárquico, porte de arma e capacidade de influenciar testemunhas, circunstâncias que justificariam o afastamento cautelar da função pública enquanto as investigações prosseguem.

“O escopo é preservar a instrução criminal, garantir a integridade física e psicológica das vítimas, manter a credibilidade das investigações e resguardar a ordem pública contra a reiteração de desvios funcionais graves”, afirma o Ministério Público na representação.

A coluna não localizou manifestação da defesa do delegado no documento analisado. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento.