MP denuncia ex-donos da Naskar por fraude de R$ 900 milhões
A acusação sustenta que havia uma estrutura organizada para captar dinheiro, movimentar os recursos e manter investidores em erro

A coluna apurou que o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) denunciou, nesta terça-feira (8/9), os três ex-donos da Naskar, Marcelo Liranço Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, e Douglas Silva de Oliveira Azara, apontado como comprador da fintech. O grupo é acusado de envolvimento em um esquema que teria causado prejuízo estimado em R$ 900 milhões a mais de 3 mil investidores.
Os quatro foram denunciados, em tese, pelos crimes de fraude com utilização de ativos virtuais, valores mobiliários ou ativos financeiros e de integração de organização criminosa. A denúncia ainda precisa ser analisada pela Justiça. O caso foi revelado pelo Metrópoles.
Para o MPDFT, o caso não se resume à incapacidade da empresa de pagar seus clientes. A acusação sustenta que havia uma estrutura organizada para captar dinheiro, movimentar os recursos e manter investidores em erro, mesmo enquanto as contas da companhia se deterioravam.
Marcelo, Rogério e Maurício teriam mantido a estrutura entre 2024 e maio de 2026. Douglas, segundo os promotores, teria aderido posteriormente, durante a fase final da crise.
Até 2,2% ao mês
A Naskar oferecia uma suposta carteira diversificada de investimentos, com promessa de rentabilidade entre 1,5% e 2,2% líquidos ao mês, proteção do capital e alta liquidez. O aporte mínimo era de R$ 30 mil.
Entre no canal de WhatsApp da Coluna Mirelle PinheiroFormalmente, os clientes assinavam contratos de “mútuo feneratício”. Segundo o MP, porém, os produtos eram apresentados como investimentos profissionais em CDBs, ações e opções.
A acusação afirma que o funcionamento da companhia passou a apresentar características de esquema Ponzi, no qual pagamentos a investidores antigos dependem da entrada de recursos de novos clientes.
Planilhas internas mostram que o chamado “Total Investido” teria saltado de cerca de R$ 541 milhões no fim de 2024 para R$ 819 milhões no fim de 2025, aproximando-se de R$ 850 milhões no início deste ano.
Enquanto a captação crescia, a situação financeira piorava. Em 30 de abril, a Naskar tinha aproximadamente R$ 848,4 milhões em obrigações, contra R$ 654,1 milhões em ativos. O patrimônio líquido negativo superava R$ 205 milhões.
O dado considerado ainda mais crítico pelo MP é o caixa, diante dos quase R$ 848 milhões em obrigações, havia somente R$ 9,2 milhões em disponibilidades imediatas.
R$ 315 milhões perdidos
A denúncia também detalha perdas da Naskar no mercado financeiro. Um relatório de renda variável aponta prejuízo global de R$ 315,5 milhões nas operações de venda analisadas.
Em uma única negociação com ações do Banco do Brasil, a perda teria chegado a R$ 40,4 milhões, em maio. Outra operação, em março, teria resultado em prejuízo de R$ 62,8 milhões.
O MP ressalta que perder dinheiro na Bolsa não constitui crime. A acusação está relacionada ao fato de que essas perdas teriam sido ocultadas dos investidores enquanto a companhia continuava prometendo rentabilidade predeterminada, liquidez e segurança.
R$ 600 mil por mês
Outro ponto destacado pelos promotores envolve os pagamentos aos antigos controladores.
Mesmo durante a deterioração das contas, Marcelo, Rogério e Maurício teriam recebido cerca de R$ 600 mil mensais cada um. Marcelo, por exemplo, teria recebido R$ 1,8 milhão entre fevereiro e abril.
Segundo o MPDFT, não foi identificada causa econômica considerada idônea para esses pagamentos.
A denúncia atribui funções diferentes aos empresários. Marcelo teria participado da direção e da captação de investidores; Rogério, do controle administrativo e financeiro; e Maurício, do núcleo financeiro e operacional, incluindo contas digitais, chaves Pix e sociedades utilizadas na circulação dos recursos.
No caso de Rogério, o MP afirma que ele recebeu, em 30 de abril, um áudio alertando para insuficiência de garantias, risco de bloqueio de contas e possibilidade de inadimplemento das operações da Naskar junto à corretora Terra.
“Segundo ardil”
A entrada de Douglas Azara é tratada pela acusação como uma nova etapa do suposto esquema.
A Naskar anunciou que havia sido adquirida por R$ 1,2 bilhão. A operação foi apresentada aos investidores como uma solução capaz de permitir a retomada dos pagamentos. Para o MPDFT, porém, a negociação teria funcionado como um “segundo ardil” para prolongar a expectativa de recuperação do dinheiro.
A denúncia afirma que Douglas possuía renda declarada de aproximadamente R$ 1,7 mil mensais, enquanto dezenas de empresas recém-constituídas relacionadas a ele apresentavam, conjuntamente, cerca de R$ 2,4 bilhões em capital social declarado. Os investigadores dizem não ter encontrado patrimônio compatível com esses números.
A Azara Capital LLC também teria sido apresentada como um fundo estrangeiro capaz de financiar a aquisição. Segundo o MP, não foi encontrada comprovação considerada idônea de que a empresa possuísse os R$ 1,2 bilhão anunciados ou capacidade para assumir as dívidas da Naskar.
Para os promotores, depois que a promessa de rentabilidade entrou em colapso, surgiu uma nova narrativa: a de que um comprador bilionário salvaria a companhia e devolveria o dinheiro dos investidores.
Vítimas
O MPDFT pediu que, em caso de condenação, a Justiça estabeleça valores mínimos de indenização para os investidores. Também quer que bens e recursos apreendidos ou bloqueados que sejam reconhecidos como produto ou proveito dos crimes sejam destinados prioritariamente ao ressarcimento das vítimas.
Marcelo, Rogério e Maurício estão presos desde 22 de julho. Em 20 de agosto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou pedido de habeas corpus apresentado pelo trio. Douglas está foragido.
Conhecido como Maurício Jahu, José Maurício foi jogador de vôlei, passou pela Seleção Brasileira na década de 1980 e posteriormente trabalhou por cerca de 20 anos como apresentador da ESPN Brasil.
A investigação continua. O próprio MPDFT registra que outros captadores, intermediários, administradores, operadores de contas e beneficiários da movimentação financeira ainda podem ter suas condutas individualizadas.





