
Mirelle PinheiroColunas

“Do lixo ao luxo”: como dinheiro do tigrinho foi parar em sucata
PF aponta que ferro-velho no Pará recebeu R$ 200 mil de rede de apostas ilegais
atualizado
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A Polícia Federal (PF) identificou que parte do dinheiro proveniente de apostas ilegais — popularizadas pelo chamado “Jogo do Tigrinho” —, que estão ligadas ao esquema que movimentou mais de R$ 260 bilhões envolvendo o Mc Ryan SP, foi direcionada para uma empresa de sucatas no interior do Pará como forma de ocultar a origem dos recursos.
Segundo documentos obtidos pela coluna, a empresa Sucatao SP Serviços e Comércio Ltda recebeu R$ 200 mil em uma única transação.
De acordo com a investigação, o repasse partiu de uma estrutura central ligada às plataformas de apostas, indicando o uso do setor de reciclagem como etapa no processo de lavagem de dinheiro. “Empresa recebeu R$ 200.000,00 entre 01/08/2024 e 31/08/2024. A YCFSHOP drenou R$ 200.000,00 em uma única transação para a empresa Sucatao SP no mês de agosto de 2024.”
A PF destaca que o uso de empresas de sucata não é aleatório. “O setor de sucatas é historicamente explorado para a lavagem de dinheiro devido à sua informalidade e à dificuldade objetiva das autoridades em fiscalizar o volume real de material físico transacionado.”
Segundo os investigadores, essa característica permite a emissão de notas fiscais fictícias, usadas para justificar a entrada de recursos ilícitos na economia formal.
O relatório ainda aponta inconsistências que reforçam a suspeita de que a empresa tenha sido utilizada como fachada. “Ausência de lastro comercial ou justificativa geográfica: é economicamente inviável que uma processadora de pagamentos em São Paulo transfira para uma empresa sediada em Curionópolis, no interior do Pará.”
Outro ponto é o perfil financeiro do responsável pela empresa. “Seu administrador apresenta uma renda presumida de apenas R$ 1.608,56, valor flagrantemente incompatível com a capacidade financeira exigida para recebimentos de tal magnitude.”
Operação
A Operação Narco Fluxo foi deflagrada pela Polícia Federal na quarta-feira (15/4), com a participação de mais de 200 policiais. Ao todo, foram cumpridos 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária.
Segundo a PF, o grupo investigado pode ter movimentado mais de R$ 260 bilhões. Foram apreendidos dinheiro em espécie, veículos de luxo, armas, além de documentos e equipamentos eletrônicos.
Entre os presos estão MC Ryan SP, apontado como principal beneficiário do esquema, além de MC Poze do Rodo, Raphael Sousa Oliveira, responsável pela página Choquei, o influenciador Chris Dias e sua esposa, Débora Paixão.
De acordo com as autoridades, o esquema utilizava empresas do ramo artístico e digital para misturar receitas legais com dinheiro de atividades ilícitas, como tráfico de drogas, apostas ilegais e rifas virtuais.
A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 2,2 bilhões em bens ligados aos investigados.
