
Mirelle PinheiroColunas

Delegada que acusou motorista atuou na extradição de Allan dos Santos
Dominique de castro foi responsável por processar o pedido de extradição do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos na Interpol
atualizado
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A delegada da Polícia Federal (PF) Dominique de Castro (foto em destaque) — que supostamente teria acusado um motorista de aplicativo de tentar extorqui-la após ela esquecer um notebook no carro dele — já teve o nome exposto em manchetes da imprensa em outras ocasiões.
Em dezembro de 2021, Dominique saiu do cargo que ocupava na Interpol. À época, ela havia atuado, há pouco, no caso do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos.
A delegada foi a terceira pessoa a perder o cargo após atuar no processo de extradição do bolsonarista.
Em resposta à decisão da corporação, ela publicou, na ocasião, um pronunciamento. “Supostamente eu fiz algum comentário que contrariou. Qual foi, quando, para quem, em que contexto e ambiente, não sei. A chefia também disse que não sabe, cumpriu uma ordem que recebeu.”
Ela chegou a dizer que se sentia revoltada com a decisão. “Além da incredulidade, há a forte sensação de revolta e de estar sendo injustiçada”, escreveu.
Na conclusão da carta, ela relembra sua atuação na PF antes de chegar a Interpol e conclui que seu trabalho são “coisas que só podem ser valorizadas e respeitadas por quem sabe discernir e já fez o que é certo”.
Entre os casos em que ela atuou enquanto estava na Interpol está o que investiga a máfia calabresa, a ‘Ndrangheta. Dominique é especializada no combate à máfia.
Após a decisão, ela foi transferida para a Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal, onde ocorreu a confusão com o motorista no último dia 8.
O caso
Conforme a versão do motorista de aplicativo de Pedro Herick da Costa, de 26 anos, registrada em boletim de ocorrência, após concluir a corrida, ele iniciou outra viagem, com destino ao mesmo local de onde havia partido anteriormente. Foi nesse momento que percebeu a presença de uma pasta no banco traseiro do carro e supôs que a passageira tivesse esquecido o objeto, que continha um notebook.
Pouco depois, ele foi procurado por Dominique por meio da plataforma. Pedro confirmou que estava com o equipamento, mas informou que precisaria finalizar a corrida em andamento antes de retornar ao aeroporto. Também avisou que cobraria R$ 50 pelo deslocamento necessário para devolver o notebook.
Segundo o motorista, a delegada teria se recusado imediatamente a pagar o valor, alegando estar sendo vítima de extorsão. Diante da negativa, Pedro afirma ter enviado uma mensagem explicando que o Código Civil prevê, inclusive, o recebimento de até 5% sobre itens achados, mas que ele cobraria apenas a taxa referente ao deslocamento.
“Eu falei que estava amparado pela legislação e que, ainda assim, não cobraria os 5%, mas somente o valor da viagem, porque simulei o trajeto no aplicativo antes de cobrar os R$ 50”, contou. Ele também afirmou ter destacado que a orientação da plataforma é deixar objetos esquecidos na delegacia mais próxima, e não devolvê-los diretamente ao proprietário.
Apesar disso, Pedro diz que se dirigiu ao local combinado. No momento da entrega do notebook, no entanto, afirma ter sido surpreendido por agentes da PF.
“Abuso de poder”
Revoltado, Pedro relatou que foi abordado por quatro agentes da Polícia Federal no saguão do aeroporto, em meio à multidão.
“Eles não se apresentaram. Já chegaram perguntando o que eu estava fazendo. Eu disse que estava entregando o notebook, mas que ela não queria pagar os R$ 50. Então me chamaram de vagabundo e disseram que o que eu estava fazendo era extorsão, que eu era um estelionatário”, relembrou.
De acordo com o motorista, os agentes não lhe deram espaço para explicações e chegaram a tentar algemá-lo. “Eu disse que eles não iam me algemar, porque não estavam lidando com um bandido, mas com um trabalhador. Eu não tinha feito nada de errado, só cobrei a taxa porque eram mais de 16 quilômetros, além do meu tempo e da gasolina”, afirmou.
Segundo Pedro, embora não tenha sido algemado, ele foi arrastado pelo aeroporto até uma sala isolada. “Me seguraram pelo braço, pela camisa e pela calça. Estava todo mundo olhando.”
Após ser identificado na delegacia do aeroporto, ele relata que foi colocado no camburão de uma viatura e levado à Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
“Foi uma humilhação. Fizeram isso na frente de todo mundo, com o aeroporto cheio. O tempo todo me chamavam de vagabundo. Eu tentava explicar a questão da lei, mas eles repetiam que não se aplicava ao caso e que o que eu estava fazendo era crime de apropriação indébita”, desabafou.
Pedro contou ainda que, na delegacia, foi colocado em uma sala e, ao conversar com o delegado responsável pelo registro do caso, ouviu que havia um equívoco por parte dos agentes e da delegada.
“O próprio delegado disse que não havia extorsão. Eu entrei pela porta da frente e saí pela porta da frente. Se eu tivesse feito algo errado, ele teria registrado os crimes e, se fosse desacato, eu teria assinado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO)”, concluiu.
A versão da PF
Por meio de nota, a Polícia Federal afirmou que, durante a devolução do notebook, o motorista teria desacatado os policiais federais presentes no local.
“Ele foi encaminhado à Superintendência Regional da Polícia Federal para esclarecimentos, sem prisão ou uso de algemas”, afirmou a PF.
Uma investigação será instaurada para a apuração de eventuais crimes cometidos.












