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Mirelle Pinheiro

Como um carro de R$ 70 mil levou delegado da PF à prisão

Lorenzo Pompílio foi condenado a 10 anos de prisão em regime fechado e perdeu o cargo público. A defesa ainda pode recorrer da decisão

Giovanna Sfalsin12/06/2026 15:37
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Reprodução
Como um carro de R$ 70 mil levou delegado da PF à prisão

A Justiça Federal do Rio de Janeiro condenou o delegado da Polícia Federal (PF) Lorenzo Martins Pompílio da Hora (foto em destaque) por receber um veículo Ford Fusion Titanium, avaliado em cerca de R$ 70 mil em 2017, como propina para usar sua influência e interferir em uma investigação policial.

A pena foi determinada em 10 anos e 6 meses de prisão em regime fechado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

No mesmo processo, o advogado Marcelo Guimarães, acusado de oferecer o veículo ao delegado, e o motorista Luis Henrique do Nascimento Almeida foram condenados a três anos de reclusão. Como ambos firmaram acordos de colaboração premiada com o Ministério Público Federal (MPF), as penas foram convertidas em prestação de serviços à comunidade.

O caso é um dos desdobramentos da Operação Tergiversação, que investigou uma organização criminosa instalada na Superintendência Regional da PF no Rio de Janeiro.

De acordo com as investigações, o grupo atuou entre 2013 e 2017 abordando empresários investigados ou citados em inquéritos policiais para exigir pagamentos em troca de favorecimentos, interferências em investigações ou proteção.

A investigação aponta que o esquema movimentou cerca de R$ 10 milhões em propinas, dos quais Lorenzo teria recebido aproximadamente um sexto.

Entenda

Segundo a denúncia do MPF, em 2017 Lorenzo e Marcelo Guimarães se encontraram em um bar na Tijuca (RJ). Durante a conversa, o advogado demonstrou preocupação com investigações conduzidas pela Corregedoria da PF.

Conforme a acusação, o delegado ofereceu usar sua influência para encerrar as apurações e perguntou quanto receberia em troca. O advogado então disse que poderia ser seu Ford Fusion recém-adquirido.

Em um encontro posterior, Lorenzo afirmou que havia resolvido o problema junto a um delegado da Corregedoria que teria sido seu aluno. Após isso, o veículo foi entregue ao policial.

Para ocultar a origem do bem, o carro foi inicialmente registrado em nome da mãe de Luis Henrique, apontada como “laranja” no esquema. Posteriormente, o veículo foi transferido para o nome da esposa de Lorenzo.

Na sentença, a juíza Caroline Figueiredo, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, afirmou que o interrogatório do delegado foi “rico em contradições” e destacou divergências entre os depoimentos prestados por Lorenzo durante a investigação e no processo judicial, além da ausência de provas que demonstrassem a aquisição regular do veículo.

A decisão também concluiu que a transferência do automóvel para o nome da esposa do delegado configurou lavagem de dinheiro, com o objetivo de dar aparência de legalidade ao patrimônio obtido por meio da corrupção.

Ao determinar a perda do cargo público, a juíza afirmou que os crimes praticados demonstram “verdadeira incapacidade moral para o exercício da função pública”, especialmente por terem sido cometidos por um agente responsável por investigar e combater crimes.

Lorenzo chegou a ser preso pela própria PF em junho de 2019, durante a Operação Tergiversação, mas foi solto uma semana depois. Ele também integrou a equipe da PF que acompanhou o depoimento do policial militar Rodrigo Ferreira, conhecido como Ferreirinha, no caso dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

A decisão, no entanto, ainda cabe recurso.