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Mirelle Pinheiro

Combustível, imóveis e agronegócio: o novo mapa financeiro das facções. Veja vídeo

Segundo ele, as facções brasileiras exercem uma espécie de “governança criminal” em áreas sob sua influência

Repórter de Mirelle Pinheiro14/06/2026 03:55, atualizado 13/06/2026 14:32
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VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Delegado da PF Alexandre Custódio

As grandes facções criminosas brasileiras deixaram de atuar apenas no tráfico de drogas e passaram a ocupar espaços cada vez mais amplos na economia formal. Além de controlar territórios e impor regras em comunidades e presídios, grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) vêm ampliando sua presença em setores como combustíveis, agronegócio, mercado imobiliário, transporte e entretenimento.

A avaliação é do delegado da Polícia Federal Alexandre Custódio Neto, coordenador-geral de Repressão a Drogas e Facções Criminosas da Diretoria de Combate ao Crime Organizado (CGPRE/Dicor), em entrevista exclusiva à coluna.

Segundo ele, as facções brasileiras exercem uma espécie de “governança criminal” em áreas sob sua influência. Além de explorar atividades ilícitas, os grupos estabelecem regras, controlam mercados e impõem restrições tanto a criminosos quanto à população que vive nesses territórios.

“Elas acabam exercendo uma certa governança criminal, ditando regras para criminosos e também para as pessoas que vivem nessas áreas”, afirmou.

O avanço sobre a economia formal ocorre principalmente porque determinados segmentos oferecem oportunidades para ocultar recursos obtidos em atividades ilegais. De acordo com o delegado, operações recentes identificaram integrantes ou associados de facções atuando em postos de combustíveis, empreendimentos imobiliários, atividades ligadas ao agronegócio e empresas de entretenimento.

Esses setores permitem que recursos obtidos com tráfico de drogas, tráfico de armas, contrabando e outros crimes sejam misturados a receitas aparentemente legítimas.

“A pessoa atua no tráfico de drogas e adquire um posto de combustível, uma fazenda ou uma produtora de música. Assim consegue trazer parte do recurso ilícito para o negócio legal e lavar o dinheiro”, explicou.

Mas, segundo a Polícia Federal, o avanço para o mercado formal traz um risco adicional: a transferência da violência para atividades empresariais.

As investigações mostram que integrantes de organizações criminosas passaram a utilizar métodos de intimidação, ameaça e coerção também em disputas comerciais.

“Muitas vezes esse criminoso que veio de uma realidade violenta leva essa prática para o mercado legal. A violência passa a ser também um instrumento de concorrência empresarial”, disse o delegado.

De acordo com ele, há casos em que empresários são pressionados a vender negócios ou abandonar determinados mercados diante da atuação de grupos ligados ao crime organizado.

O crescimento econômico dessas organizações também ajuda a explicar como elas financiam suas estruturas.

Ao contrário da percepção popular, as facções não funcionam exatamente como empresas centralizadas. Segundo Alexandre Custódio, elas se parecem mais com uma rede de empreendedores criminosos que mantêm negócios próprios, mas compartilham proteção, logística e influência.

As investigações apontam que uma das principais fontes de receita das facções atualmente está ligada ao varejo de drogas nas áreas sob seu controle. As chamadas “biqueiras” ou “bocas de fumo” garantem fluxo constante de recursos, permitindo o financiamento de advogados, assistência a familiares de presos e manutenção da estrutura da organização.

Além disso, historicamente, grupos criminosos também arrecadaram recursos por meio de mensalidades pagas por integrantes, conhecidas em algumas facções como “caixinhas” ou contribuições obrigatórias.

Outro mecanismo identificado pelas autoridades é a exploração econômica dos territórios dominados. Em diversas regiões do país, organizações criminosas passaram a interferir em atividades como venda de gás, transporte alternativo, fornecimento de internet clandestina e cobrança de taxas de comerciantes e moradores.

Para o delegado, o enfrentamento desse modelo exige atuação simultânea em diferentes frentes.

“Não existe bala de prata. É preciso combater a violência, retomar territórios e atingir as estruturas financeiras dessas organizações”, afirmou.

Nesse cenário, ganham protagonismo as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs), que reúnem Polícia Federal, polícias estaduais, Polícia Penal e outros órgãos de segurança para compartilhar inteligência e realizar operações conjuntas.

Segundo a PF, a integração entre as forças de segurança tem permitido resultados mais expressivos no combate às facções, especialmente na prisão de lideranças, apreensão de patrimônio e desarticulação de grupos responsáveis pelo controle de territórios.

Estudos recentes reforçam a dimensão do problema. Pesquisa Datafolha divulgada em 2025 apontou que cerca de 19% dos brasileiros com mais de 16 anos afirmam viver em áreas dominadas ou fortemente influenciadas por facções criminosas ou milícias, o equivalente a aproximadamente 28,5 milhões de pessoas.