
Mirelle PinheiroColunas

Assassinatos em UTI no DF faz país relembrar o “Anjo da Morte”
Embora separados por mais de duas décadas e por realidades distintas, os dois casos compartilham elementos que inquietam investigadores
atualizado
Compartilhar notícia

As prisões de técnicos de enfermagem suspeitos de matar ao menos três pacientes dentro da UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga, despertaram um sentimento que vai além da revolta.
Para muita gente, o caso trouxe de volta a lembrança de um dos episódios mais sombrios já registrados dentro de um hospital brasileiro, protagonizado por Edson Izidoro Guimarães (foto em destaque) que ficou conhecido como “o Anjo da Morte”.
Embora separados por mais de duas décadas e por realidades distintas, os dois casos compartilham elementos que inquietam investigadores e especialistas: mortes concentradas em plantões específicos, vítimas em situação de extrema vulnerabilidade e a suspeita de que profissionais da saúde tenham se valido da posição que ocupavam para decidir quem viveria e quem morreria.
Anchieta
No Distrito Federal, a investigação começou de forma incomum. Em 23 de dezembro de 2025, a própria direção do Hospital Anchieta procurou a Polícia Civil ao identificar circunstâncias consideradas atípicas em óbitos registrados na UTI. Três pacientes, sem qualquer vínculo entre si, morreram após passarem pela unidade em um curto intervalo de tempo.
As vítimas eram João Clemente Pereira, de 63 anos, servidor da Caesb; Marcos Moreira, de 33, servidor dos Correios; e Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, professora aposentada. O único ponto em comum entre eles era a internação na mesma UTI, entre novembro e dezembro.
A apuração interna levou à suspeita sobre três técnicos de enfermagem: Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva, de 28 e 22 anos. Com base nas evidências reunidas, o hospital comunicou formalmente a polícia e afastou os profissionais.
A partir daí, a PCDF passou a analisar imagens de câmeras de segurança, ouvir testemunhas e cruzar informações clínicas. Em janeiro, foi deflagrada a Operação Anúbis, que resultou nas prisões e em uma série de buscas em endereços no DF e no Entorno.
Segundo o delegado Maurício Iacozzilli, a análise dos celulares pode revelar se as mortes confirmadas foram apenas parte de um quadro maior. A polícia pretende cruzar dados de óbitos com escalas de plantão dos investigados, inclusive em outros hospitais onde tenham trabalhado. A suspeita é de que o número de vítimas possa ser maior.
Rio de Janeiro
Esse método de investigação não é novo e foi justamente ele que ajudou a desvendar, em 1999, o caso que chocou o país no Rio de Janeiro.
Naquele ano, no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, a direção começou a estranhar o número elevado de mortes em determinados turnos da Unidade de Pacientes Traumáticos. A discrepância ficou evidente quando se percebeu que, nos dias em que um auxiliar de enfermagem específico não estava escalado, praticamente não havia óbitos. Quando ele voltava ao plantão, as mortes se multiplicavam.
O funcionário era Edson Izidoro Guimarães. Auxiliar de enfermagem, ele acabou preso após denúncias feitas por colegas e por uma funcionária da limpeza, que afirmou ter visto pacientes morrerem logo após receberem injeções aplicadas por ele.
Edson confessou ter matado doentes em estado terminal, retirando máscaras de oxigênio ou aplicando a mesma substância usada pelos técnicos do Distrito Federal. Em um primeiro momento, alegou agir para “amenizar o sofrimento”. Depois, a investigação revelou um motivo ainda mais perturbador, o recebimento de comissões de funerárias, em um esquema que ficou conhecido como a Máfia das Funerárias.
Segundo a polícia, Edson recebia valores que variavam de cem a mil reais por cada morte, dependendo do tipo de óbito e da existência de seguro. Embora tenha sido condenado diretamente por cinco assassinatos, as apurações indicaram que ele pode ter causado mais de uma centena de mortes ao longo dos anos.
O caso expôs um esquema nacional de corrupção dentro de hospitais públicos, envolvendo funcionários, funerárias e intermediários. A comoção foi tamanha que levou a mudanças administrativas, investigações em outros estados e indenizações a familiares de vítimas.
Agora, mais de 25 anos depois, o país volta a se deparar com a possibilidade de mortes provocadas dentro de unidades de terapia intensiva, locais que deveriam representar a última linha de cuidado, não de ameaça.
No Distrito Federal, a investigação ainda está em curso e não há, até o momento, indícios de envolvimento de funerárias ou motivação financeira semelhante à do caso do Rio.












