Advogado que apontou falhas no caso Deolane é investigado por coação.
Marcos Roberto Cebola e Silva é alvo de apuração por suposta coação no curso do processo envolvendo juiz da Operação Scream Fake

O advogado Marcos Roberto Cebola e Silva, que apontou supostas irregularidades em processos relacionados à prisão da influenciadora e advogada Deolane Bezerra, é investigado por suposta coação no curso de um processo. A apuração teve origem em um episódio ocorrido durante uma audiência da Operação Scream Fake, em outubro de 2025, quando o advogado discutiu com o juiz Deyvison Heberth dos Reis.
A coluna apurou que, na ocasião, Cebola e Silva atuava na defesa de uma das rés da operação, que foi presa após tentar entrar em uma penitenciária com quatro cartões de memória escondidos na barra da calça. Segundo a denúncia, os dispositivos continham a contabilidade e o organograma de setores estratégicos do Primeiro Comando da Capital (PCC).
A investigação também descreveu um setor chamado “Gravatas”, relacionado a advogados, além de estruturas voltadas à saúde e a reivindicações. Além de apontar o uso da ONG Pacto Social e Carcerário como fachada para atividades atribuídas à organização criminosa.
Durante uma audiência realizada em 16 de outubro de 2025, o advogado pressionou o magistrado pela revogação das prisões preventivas. Em determinado momento, afirmou: “Se o senhor não revogar essas prisões, eu temo o senhor não adentrar ao Elísio.”
O magistrado imediatamente interrompeu o advogado, perguntando se aquilo era uma ameaça e o que significava “Elísio”. Cebola explicou que se referia ao paraíso, argumentando que a postura do juiz diante das provas “cabais” do processo deveria ser de reconhecimento de nulidade para seguir o devido processo legal.
Entre no canal de WhatsApp da Coluna Mirelle PinheiroO juiz Deyvison Heberth reagiu com indignação, afirmando que em quase 20 anos de carreira e após julgar diversos processos do PCC, nunca ouviu algo parecido. “O senhor me dizer que se eu não revogar a preventiva, então eu sou candidato a morrer”.
Em sua defesa, Cebola e Silva disse que “todo mundo vai morrer um dia” e que a questão era o destino espiritual — paraíso ou inferno —, reiterando que o processo era “extremamente teratológico” e que estava sendo criado um “juiz de exceção”.
O episódio fundamentou a requisição de instauração de um inquérito policial pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), para apurar possível crime de coação no curso do processo.
A coluna apurou ainda que, após os episódios envolvendo o advogado, a ré, que era defendida por ele no processo, revogou a procuração. Em março de 2026, uma nova advogada passou a acompanhar o recurso de apelação.
Além disso, segundo a apuração, Marcos já havia representado outros envolvidos no caso perante a Corregedoria e a Ouvidoria, incluindo o delegado responsável pela investigação e o próprio magistrado.
Entenda
Como divulgado pela coluna, Marcos Roberto Cebola e Silva publicou uma série de 17 vídeos nas redes sociais, chamada “InPrudente”, e protocolou notícia de fato no CNJ, CNMP, Ministério Público, Justiça e OAB. Ele pediu uma apuração independente sobre processos que, segundo ele, resultaram na prisão de Deolane Bezerra.
Entre os questionamentos apresentados pelo advogado estão a utilização de provas encontradas em celas após revistas, algumas realizadas sem a presença dos detentos; um celular que teria sido usado como prova antes de ser oficialmente apreendido e periciado; e um bilhete encontrado no esgoto de uma penitenciária que, segundo documentos obtidos pela coluna, deu origem a investigação.
Cebola e Silva também citou um processo em que uma apreensão de 6,48 gramas de entorpecentes teria passado a constar como 6 quilos em documentos posteriores.
Ao tratar especificamente da influenciadora, o advogado afirma que o nome de Deolane não aparecia nos cinco processos analisados por ele inicialmente.
Segundo ele, a primeira menção ocorreu em uma audiência, em janeiro de 2023, quando um promotor perguntou a uma ré sobre supostos depósitos para uma advogada chamada Deolane. A mulher teria negado.
Cinco meses depois, de acordo com o advogado, o nome de Deolane apareceu nas alegações finais do processo relacionado ao caso. Ele afirma que a expressão “Pagamento em nome de a Deolane Bezerra Santos (advogada)” foi reproduzido na sentença e, posteriormente, utilizado na investigação que levou à prisão da influenciadora.
Cebola e Silva também questionou o valor de R$ 27 milhões atribuído à movimentação financeira de Deolane. Segundo ele, a quantia teria considerado tanto os valores que entraram quanto os que saíram da conta, contabilizando o mesmo dinheiro duas vezes.
Ele sustenta ainda que o relatório final da investigação utilizou a expressão “em tese” para tratar das condutas atribuídas a Deolane e apontou a necessidade de novas diligências para reforçar a vinculação dela ao crime.





