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Matheus Leitão

Flávio Bolsonaro leva campanha à missa da Padroeira e Lula fica no Alvorada

Evangélico, candidato vai à catedral de Brasília, mas seu pastor defende destronar Aparecida. Alckmin repete romaria de 40 anos

11/10/2026 20:52
Reprodução/YT
Flávio Bolsonaro leva campanha à missa da Padroeira e Lula fica no Alvorada

A agenda chegou às redações pela assessoria de imprensa da campanha de Flávio Bolsonaro (PL). Na segunda-feira, 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora Aparecida, às 11h, o candidato participa da “Missa da Equipe Organizadora e Consagração das Partículas”, na Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, em Brasília, presidida pelo cardeal Paulo Cezar Costa. O mesmo cardeal que, quatro dias antes, abriu a própria residência para receber o candidato.

Flávio é evangélico. Do outro lado da disputa, Lula deverá passar o feriado no Palácio da Alvorada, apurou a reportagem. Em Aparecida estará o vice, Geraldo Alckmin, que há quatro décadas não falta à festa, devoção que ganhou peso pessoal depois que o filho Thomaz morreu num acidente de helicóptero, em 2015.

A ida de Flávio Bolsonaro à missa é uma estratégia com dois objetivos. O primeiro é enterrar como fake news a ideia de que Flávio retiraria de Aparecida o título de padroeira. E de fato ele nunca disse isso. Quem defende a ideia, com todas as letras, é o bispo JB Carvalho, fundador da Comunidade das Nações, a igreja onde Flávio foi batizado, e seu mentor espiritual. Em _A Bomba_, livro de 2001 obtido pela reportagem, o bispo chama a santa de “figura demoníaca” e pede que o Congresso lhe retire o título, revelado por esta coluna. O segundo objetivo é o voto católico, o terreno em que Flávio está atrás.

O cardeal que abriu a porta

Na quinta-feira (8/10), fora de qualquer agenda pública, dom Paulo Cezar Costa recebeu Flávio e o vice, Alfredo Gaspar, em sua casa, e os despediu com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida nas mãos. O gesto é incomum entre os arcebispos que o antecederam em Brasília. Encontros de bispos com presidenciáveis costumam ocorrer na sede da CNBB, e não na residência de um cardeal. Dom Paulo não consultou os demais, e a recepção causou desconforto no alto clero. A arquidiocese chamou a conversa de “visita institucional” e bloqueou os comentários na publicação.

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Foi nesse encontro que, segundo informado à coluna, a presença de Flávio na missa da padroeira teria sido acertada. O resultado é que a celebração da padroeira, na catedral da capital, entrou na agenda oficial de uma campanha presidencial. E o roteiro termina com um encontro com frei Gilson, o carmelita dos rosários de madrugada que reúne milhões nas redes e virou peça cobiçada na disputa pelo voto católica.

Dom Paulo Cezar Costa pode alegar cortesia institucional. Mas quem entrega a imagem da padroeira a um candidato em pleno segundo turno sabe o valor da fotografia. Conversar com políticos faz parte da vida pública. Emprestar o altar a um deles é outra coisa. E dom Paulo o empresta a um candidato que, duas semanas atrás, acusou “gente de dentro da CNBB” de ajudar o PT a espalhar o boato sobre a padroeira. A conferência negou em nota. O cardeal é membro dela.

O que diz a Igreja

A postura do cardeal destoa de tudo o que a Igreja vem dizendo. A CNBB repete, em sua mensagem para as eleições de 2026, que a Igreja não indica candidatos nem partidos. Em 2022, na véspera do 12 de outubro, foi além. Lamentou a “exploração da fé e da religião” para angariar votos, afirmou que momentos especificamente religiosos não podem ser usados por candidatos e condenou o uso da religião por todo e qualquer postulante como ferramenta de campanha.

Aparecida segue a mesma linha. Em 2022, o então arcebispo, dom Orlando Brandes, avisou que uma atividade paralela na agenda de Jair Bolsonaro na cidade não tinha a sua anuência. Neste ano, o novo arcebispo, dom Mário Antônio da Silva, que preside pela primeira vez a festa da Padroeira, rechaçou o uso político da data. “Que ninguém venha a Aparecida para alimentar divisões ou animosidades”, disse neste fim de semana. Aliados de Flávio descartaram a ida ao santuário.

O mesmo recado vem de Roma. Desde o início do pontificado, Leão XIV repete que não pretende se envolver em política partidária. Na quarta-feira (7/10), em audiência na Praça São Pedro, lembrou que a missão da Igreja não é de ordem político-partidária. No fim de setembro, no voo de volta da França, foi mais direto. Ao responder a uma pergunta sobre a Alemanha, afirmou que extrema direita e religião misturadas não são expressão autêntica do cristianismo. Uma fala que significa muito se olharmos para o Brasil e quem representa essa ideologia política.

Enquanto a CNBB fecha a porta ao palanque, Aparecida pede que a disputa fique do lado de fora e o papa insiste na distância dos partidos, a catedral de Brasília abre a missa da padroeira a um candidato evangélico em campanha.

Um rito emprestado

A consagração, que dá nome ao compromisso na agenda, é o coração da missa. É o momento em que, segundo a fé católica, o pão e o vinho se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo, justamente o ponto em que católicos e batistas se separam há cinco séculos. Pela disciplina da Igreja, quem não está em plena comunhão com ela não recebe a hóstia. Flávio estará diante do gesto central de um rito do qual não participa. Nada impede um evangélico de assistir a uma missa. O que salta aos olhos é a campanha anunciar o rito como seu, sob o título de missa da “Equipe Organizadora”, ao que tudo indica a dela própria. A reportagem não encontrou registros públicos de Flávio em missas antes de ele se lançar pré-candidato, em dezembro de 2025. As celebrações católicas entraram na sua agenda junto com a candidatura. Na pré-campanha, ele foi à Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade (GO), visita que a equipe fez questão de classificar como exclusivamente espiritual.

O voto que está em jogo

Por trás da liturgia está a conta eleitoral. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Entre os evangélicos, lidera com folga, 52% a 26% no Datafolha de 1º de outubro. Entre os católicos, maioria do eleitorado, a conta se inverte, com Lula em 50% e Flávio em 32%. É nesse nicho, o mais disputado do segundo turno, que o cardeal de Brasília resolveu entrar na eleição.

Em 1717, três pescadores lançaram a rede no rio Paraíba do Sul e recolheram a imagem que viraria a padroeira do país. Nesta segunda-feira, outra rede será lançada na catedral que leva o seu nome. O que ela pretende recolher é voto.