
Mario SabinoColunas

Um alerta a André Mendonça: muito cuidado com os inimigos
Mendonça já deve saber que não tem amigos no tribunal. O que talvez não tenha entendido completamente é que fez inimigos, e não só no STF
atualizado
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Vou me permitir dar um alerta ao ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF: cuidado. Muito cuidado.
Ele já deve saber, obviamente, que não tem amigos no tribunal. O que talvez não tenha entendido completamente é que fez inimigos ferozes, e não apenas no tribunal.
Os inimigos têm tentáculos em todos os lugares, inclusive na imprensa, e é por meio da imprensa que eles começam o seu trabalho de desgaste, lançando mão primeiramente de jornalistas ingênuos e, em seguida, das penas de aluguel.
Ainda estamos na fase dos recados. O mais recente deles é que Mendonça não deveria “supervalorizar informações que não sejam objetivamente criminosas, sob pena de minar a confiança da população no Judiciário e sujeitar a corte e seus integrantes a uma nova onda de ataques”.
O recado parte da lorota reiterada dia sim, outro também de que todas as informações que já vieram à tona ainda não são suficientes para incriminar os ministros envolvidos com Daniel Vorcaro, e de que investigá-los significa fazer o jogo de golpistas.
Enquanto os recados são dados, os inimigos de Mendonça devem estar levantando todo tipo de informação possivelmente comprometedora sobre ele para ser usada como moeda de troca.
Imagino, por exemplo, que o Instituto Iter, criado por Mendonça, esteja sob intenso escrutínio. O ministro precisa ter atenção redobrada, portanto, aos contratos firmados pelo instituto, especialmente os de patrocínio, bem como às funções desempenhadas por ele no Iter.
Não há precaução que seja excessiva, ainda, no tipo de contato que o ministro mantém com os investigadores. É fundamental evitar toda e qualquer troca de mensagens por aplicativos e conversas presenciais sem testemunhas. Ater-se aos canais oficiais é imperativo.
Não menos importante é evitar os holofotes extras, em especial os lançados por políticos. Teria sido de bom alvitre, por exemplo, recusar neste momento a homenagem que Mendonça recebeu na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Por mais que o seu discurso na assembleia paulista em prol da contenção, da prudência e da imparcialidade de um magistrado soe como música a quem já não tolera mais o espetáculo de arrogância, truculência e parcialidade a que se assiste na cúpula do Judiciário, o ministro precisa ter sempre presente que os seus inimigos não titubearão se puderem transformá-lo em “juiz parcial” e “carrasco político”, como fizeram com Sergio Moro. Eles não lhe respeitarão o peso da toga de integrante do Supremo.
Diz-se que a abertura de investigações contra os ministros envolvidos com Vorcaro contaria, hoje, com a maioria de um voto no plenário do STF. Não sei se Mendonça acredita nisso. Eu não acredito. Mas ela pode ser alcançada se a delação de Vorcaro vier realmente forte e não se der munição aos inimigos para que melem tudo.