Mario Sabino

Sem Messias no STF e sem trens de alta velocidade

Eu estava em um trem veloz quando soube que o Senado havia rejeitado “um dos maiores juristas da história recente do país” para o STF

atualizado

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Advogado-geral da União, Jorge Messias: órgão diz que nunca colocou sigilo em honorários -- Metrópoles
1 de 1 Advogado-geral da União, Jorge Messias: órgão diz que nunca colocou sigilo em honorários -- Metrópoles - Foto: KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo

Eu estava a 300 quilômetros por hora, em um dos trens de alta velocidade que cruzam a Itália de norte a sul, quando recebi a notícia de que o Senado havia rejeitado “um dos maiores juristas da história recente do país” para ser ministro do STF.

Confesso, e espero que ninguém peça a minha cabeça pela confissão, que precisei ler duas vezes o elogio a Jorge Messias feito por Gilmar Mendes, em postagem na qual o decano do Supremo lamentava a rejeição do AGU de Lula, que a imprensa e a oposição brasileiras classificaram como “histórica”, e não apenas da história recente.

Na primeira leitura, achei que estava sofrendo um AVC; na segunda, já refeito do susto quanto à higidez das minhas faculdades mentais, eu me perguntei se, na avaliação de Gilmar Mendes, esse irreprochável Jorge Messias suplantaria essa incensurável Viviane Barci de Moraes, a advogada de R$ 129 milhões.

O espaço está aberto para a resposta do decano, desde que não se mande enfiar a questão em lugar despropositado, até porque significaria igualmente tecer consideração preconceituosa sobre sexualidades alheias, e o ministro nunca quis ser mal interpretado dos cimos da sua estatura.

Temos, assim, que a rejeição de Messias foi marcante, dada inclusive a grandeza do jurista (e como há juristas no Brasil para substituí-lo, meu Deus, onde estás que não respondes?), embora histórico, de verdade, seria se o país voltasse a ter trens dignos de desastres ferroviários, se é que você me entende (já deles usufruímos, garotada, embora não de muitos).

Pensei a minha ideia fora do lugar enquanto comia o meu lanchinho na classe executiva do Frecciarossa (68 euros o bilhete, calma).

Para continuar nela, na ideia fora do lugar de trens similares aos europeus no Brasil, sinto dizer que tal capítulo verdadeiramente histórico não vai acontecer, nem cedo, nem tarde, dada a estupenda qualidade de quem nos comanda, de quem nos legisla, de quem nos julga e, por que não dizer, de quem nos comenta.

O mais provável é que ocorra o contrário: que tudo de bom que ainda há nesta Europa mal frequentada por mim há quase meio século vá para o mesmo brejo brasileiro, visto que aqui o material humano melhora a olhos vistos como aí. Mas, por favor, Senhor, não imediatamente.

O Brasil é o país do futuro, o meu amigo Stefan Zweig foi quem escreveu a linha lá em Petrópolis, onde cometeu aquele ato de imenso otimismo com o Ocidente. Só que o futuro brasileiro era diferente do que ele projetava e, repleto de gente feita sob medida para brilhar fora de trilhos, revelou-se internacional. Universal, até, vamos deixar de lado o nosso complexo de vira-lata.

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