Mario Sabino

O STF fará justiça ao banqueiro

Só o STF tem a necessária serenidade para julgar Daniel Vorcaro. As demais instâncias do Judiciário têm preconceito contra ricos como ele

atualizado

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Fraga Alves/Metrópoles
Daniel Vorcaro saindo da prisão -- Metrópoles
1 de 1 Daniel Vorcaro saindo da prisão -- Metrópoles - Foto: Fraga Alves/Metrópoles

Por que será que o “banqueiro” Daniel Vorcaro quer tanto que o seu caso suba diretamente para o STF? O lógico não seria ele preferir ter mais duas instâncias para se defender, em caso de condenação? Talvez até três, se houvesse apelação  final ao próprio Supremo?

É que, sabe, só o STF não se deixará contaminar pelo preconceito contra ricos que grassa nas instâncias inferiores do Judiciário brasileiro. Preconceito que pode ter contaminado também o STJ.

O preconceito contra ricos é um problema no Brasil. Eu diria que é o maior deles. A gente odeia — o certo é dizer inveja — que os outros tenham sucesso na vida, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, onde a riqueza goza de admiração profunda, arraigada no caráter nacional. Por isso os americanos são o que são e nós somos o que somos ao não pensar como eles: um país de pobretões ressentidos.

A nossa é uma mentalidade socialista herdada da Europa, principalmente da França, que inventou esse troço de igualdade, uma falácia sem tamanho. Como é que pode haver igualdade, se as pessoas são diferentes nos seus talentos?

Eu, por exemplo, não consigo esconder o meu ressentimento de classe, o meu socialismo de nascença. Fico escandalizado com o padrão de vida de Daniel Vorcaro. Padrão de vida, não, que isso é coisa de classe média. Uma vida sem padrões, quero dizer.

A minha pobreza se estende às relações sociais, e só ouvi falar de Daniel Vorcaro quando saiu publicado que ele havia mimado ministros do STF em viagens faustosas a Nova York e Londres para discutir o Brasil.

Não entendo por que o Brasil precisa ser discutido nos Estados Unidos ou na Europa, entre brasileiros, mas me explicaram que a distância geográfica significa, no caso, distanciamento crítico. Faz com que, em busca de soluções para os problemas nacionais, eles enxerguem com mais nitidez o panorama nestes trópicos endemicamente tristes.

Tentei me esforçar para ter o mesmo patriotismo desses brasileiros abnegados, que merecem ser recompensados com mimos luxuosos, sim, porque quem gosta de miséria é intelectual, como diria Joãozinho Trinta apud Elio Gaspari. Consegui chegar perto dessa nobreza de intenções? Não. Uma vez no exterior, só quero mesmo aumentar a minha distância em relação ao Brasil. As limitações da classe média são intransponíveis.

As confusões com o “banco” de Daniel Vorcaro, que devem estar sendo grandemente exageradas pela imprensa, claro, já estavam no noticiário quando encontrei um amigo que havia voltado do verão europeu. Bem, talvez as minhas relações sociais não sejam assim tão pobres, admito.

Esse amigo me contou que ficou impressionado com o que viu em Saint-Tropez, um dos poucos lugares na França em que ninguém ouve falar de igualdade. Fiquei impressionado com o fato de ele ter ficado impressionado com alguma coisa em Saint-Tropez e pedi que me contasse logo.

O meu amigo contou, então, que viu Daniel Vorcaro gastar, em uma única noitada, 200.000 euros com champanhe Dom Pérignon. “O quê?!”, reagi, com a exclamação bem mais longa do que a interrogação.

Só de saber uma coisa dessas, eu me transformei em Robespierre e condenei de antemão o sujeito à guilhotina, sem apelação. Na minha cabecinha ressentida, quem gasta tamanha fortuna com champanhe não pode ter ganhado dinheiro honestamente.

É aí que entra a necessária serenidade do STF para julgar Daniel Vorcaro, entende? Sem preconceito, com toda aquela disposição para resolver os problemas brasileiros que vêm sendo exaustivamente discutidos no exterior. E, para tudo que fique muito claro em relação a Daniel Vorcaro, para que a verdadeira justiça lhe seja feita, é imprescindível que o processo seja bem sigiloso, sigilo máximo, sigilo master, como acaba de impor o ministro Dias Toffoli, um homem empenhado em não decepcionar.

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