
Mario SabinoColunas

Ninguém mais precisa nem sequer parecer honesto no Brasil
No Brasil, a hipocrisia é uma necessidade que o vício toma emprestado do fundo garantidor de crédito da virtude, mas não por muito tempo
atualizado
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A propósito do “banco” Master, está cada vez mais claro que ninguém mais precisa nem sequer parecer honesto no Brasil para obter vantagens nos diversos círculos do poder político.
É uma mudança monumental a que ocorreu nestas latitudes, visto que a aparência de honestidade era reconhecida como necessidade universal desde que Júlio César divorciou-se de Pompéia Sila, coitada, por ela já não parecer ser fiel a ele aos olhos de Roma, embora o fosse.
O motivo lógico de a aparência de honestidade não ser mais necessária é que a própria honestidade deixou de ser atributo na vida política do país.
Não que o tivesse sido como convicção arraigada dos seus protagonistas, reconheça-se. Mais do que nunca, porém, ela é desvantagem competitiva. O honesto virou “moralista”; o malandro, “realista”. O limite para a malandragem, para a vigarice, para a corrupção, para o estelionato, é só aquele a partir do qual os esquemas entram em entropia, ameaçando o próprio sistema que o gerou.
Dito em português de boteco, é quando o malandro, o vigarista, o corrupto, o estelionatário, exagera na lambança e dá bandeira até para os frouxos controles institucionais. Aí, sim, para isolar o sujeito e fazer parecer que ele só existe na exceção, os cúmplices, os beneficiários, os amigões do peito, vestem a fantasia da honestidade, que até ontem dormia na gaveta com naftalina.
No Brasil, a hipocrisia é uma necessidade que o vício toma emprestado do fundo garantidor de crédito da virtude, mas não por muito tempo, só no calor da emergência.