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Mario Sabino

Investigar o que ocorre no Maranhão é a melhor resposta a Moraes

A melhor forma de responder à quebra de sigilo de fonte do jornalista Luis Pablo é fazer investigação jornalística consistente no Maranhão

14/08/2026 13:07, atualizado 14/08/2026 13:10
Reprodução / Redes sociais
Blogueiro Luís Pablo -- Metrópoles

A melhor forma de responder à mais recente arbitrariedade do ministro Alexandre de Moraes, a chancela para a quebra do sigilo de fonte do jornalista Luis Pablo, é fazer uma investigação jornalística consistente sobre o que está acontecendo, de fato, no Maranhão.

Se eu ainda fosse editor, mandaria os meus melhores repórteres investigativos para lá. As informações que me chegam são espantosas, relato como eventual subsídio.

O ministro Flávio Dino se diz perseguido e alvo de ameaças de morte no seu estado. A acusação é a de que Luis Pablo, que denunciou em seu blog o suposto uso irregular de carros oficiais pelo ministro, estaria agindo em conluio com os adversários políticos de Flávio Dino.

O jornalista e a sua fonte teriam, inclusive, colocado em risco a segurança do ministro e da sua família no afã de divulgar o que seriam fake news sobre o uso dos carros oficiais.

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Luis Pablo nega qualquer conluio e também que esteja a soldo da oposição a Flávio Dino. Diz ainda nunca ter exposto a risco o ministro e membros do seu clã.

Como o inquérito do fim do mundo, no qual Alexandre de Moraes enfiou o jornalista, continua sigiloso, não se tem os detalhes dessa acusação. Não resta dúvida, contudo, de que o contexto é de luta política acirrada, e as acusações lançadas contra o ministro  Flávio Dino são igualmente pesadas.

Em meados do ano, o deputado estadual Yglésio Moyses subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Maranhão para dizer que Flávio Dino usava o cargo no STF para pressionar políticos locais a posicionar-se contra o pré-candidato do governador Carlos Brandão, ex-aliado do ministro, ao governo do estado.

Durante um evento social, Flávio Dino teria dito, inclusive, a frase “eu botei, eu tiro”, que Yglésio Moyses interpretou como referência ao poder do ministro em derrotar Carlos Brandão.

Ao que afirmou o deputado, Flávio Dino gostaria que o candidato do atual governador, Orleans Brandão, do MDB, primo de Carlos Brandão, fosse derrotado por Eduardo Braide, do PSD, uma vez que Felipe Camarão, do PT, que era vice de Carlos Brandão, aparece muito mal nas pesquisas eleitorais.

A pré-candidatura de Felipe Camarão foi apoiada no ano passado por Flávio Dino, quando ele já estava no STF, o que levou a que o deputado federal Nikolas Ferreira apresentasse um pedido de impeachment contra o ministro por atuação político-partidária.

O rompimento entre Flávio Dino e Carlos Brandão, que foi o seu vice nas duas vezes em que o ministro governou o Maranhão, está na origem de todas as confusões atuais. O grupo de Carlos Brandão diz que o o grupo de Flávio Dino queria ocupar os mesmos espaços de quando o ministro era governador e não se conforma com o fato de tê-los perdido. Traduzindo para o francês: não teria entendido que o latifúndio mudou de dono.

A briga segue renhida desde então, com acusações de parte a parte, e tem um presunto no meio. Um certo João Bosco, funcionário nomeado por Felipe Camarão, que foi assassinado em 2022.

João Bosco foi morto com três tiros disparados por Gibson Cutrim, réu confesso, que disse que o assassinato se deu em meio a uma disputa em torno de uma dívida. Ele descartou que o crime guardasse qualquer relação com o governador Carlos Brandão, como se chegou a cogitar na ocasião. Afirmou que recebeu pressões da polícia para fazê-lo, mas que resistiu.

A história começou a mudar de rumo quando a mulher do assassino gravou um vídeo no qual disse ter procurado gente ligada ao governador para soltar o marido. Como não teve sucesso, afirmou que buscaria “o outro lado”.

O assassino foi transferido para um presídio federal em Brasília; o seu processo, que estava no STJ, subiu para o STF.

Com o caso nas mãos, o ministro Flávio Dino concedeu progressão de regime a Gibson Cutrim, hoje em em prisão domiciliar, e o sujeito começou a divulgar outra versão para o crime. Agora, o assassinato teria sido cometido sob os auspícios de pessoas ligadas ao governador Carlos Brandão. Entre elas, o secretário estadual de Assuntos Legislativos, Raimundo Cutrim, parente distante de Gibson e que vem a ser o informante do jornalista Luis Pablo, como mostrou a quebra de sigilo de fonte.

Os novos contornos do caso fizeram com que o STF emitisse uma ordem de busca e apreensão contra Raimundo Cutrim, bem como a sua prisão domiciliar.

A busca e apreensão foi realizada em 17 de julho na casa e em um sítio de Raimundo Cotrim. No dia seguinte, ele se apresentou na sede da Superintendência da PF em São Luís, e saiu de lá com tornozeleira.

Uma semana antes, porém, Raimundo Cotrim gravou um vídeo para dizer que sabia da iminência da sua prisão por uma “corrente de boatos” espalhados por “deputados dinistas”. Ele afirma ser vítima de uma “onda de terror” causada pela disputa eleitoral no estado. Reproduzo a íntegra:

“Eu sou Raimundo Cutrim, delegado de Polícia Federal aposentado, duas vezes secretário de Segurança Pública do nosso estado e três vezes deputado estadual. Posso lhes garantir, sob o testemunho de milhares de amigos, que sou vida limpa, sem jamais ter cometido nenhum ilícito. Sou de uma família grande de parentes distantes, inclusive o Gibson Cutrim, assassino confesso que tem sido utilizado politicamente nos últimos meses. Gilson (sic) matou sob a luz do dia, confessou repetidas vezes. Disse que o fez por problema pessoal entre ele e o outro marginal.

A vítima, de nome Bosco, era funcionário fantasma da Secretaria de Educação do Estado, nomeado pelo então secretário de Educação, Felipe Camarão. Pois agora fiquei sabendo que o ministro do Supremo, Flávio Dino, teria decretado minha prisão por uma suposta obstrução da investigação do caso. E de que forma eu fiquei sabendo? Por meio da corrente de boatos que os chamados deputados dinistas espalham, criando onda de terror em meio a uma disputa eleitoral na qual eles se sentem perdidos. Causa-me estranheza, se isso for verdade, o mandado de prisão contra mim assinado por Flávio Dino, reconhecidamente inimigo meu pessoal e político dos tempos em que ele era governador e eu deputado estadual.

Esses dinistas que espalham esta ameaça são os mesmos que se fizeram portadores de recados propondo troca de sentenças do mesmo ministro por redutos eleitorais de Colinas e Barreirinhas nas eleições municipais de 2024. Coisa grave que ele, em defesa de sua honra, deveria mandar apurar e não fez. Estou aqui com as minhas verdades, muitas delas incômodas para eles, que haverei de revelá-las tão logo isso se torne necessário.”

A suposta barganha citada por Raimundo Cotrim teria como um dos seus itens a resolução do imbróglio da indicação de dois conselheiros para o TCE do Maranhão, barrada por Flávio Dino no âmbito de uma ação impetrada pelo Solidariedade.

Indignados com o que consideram ser aleivosia, os “dinistas” afirmam que nunca houve proposta de barganha nenhuma e que tudo não passa de vingança dos adversários pela atuação irreprochável do ministro do STF.

Moral da história: não tente achá-la.

No começo da década de 1990, fui declarado persona non grata em Alagoas por causa de uma reportagem que fiz sobre a mulher do então governador do estado, que mandava e desmandava no estado. Estimo que, se repórteres investigativos fizerem o seu trabalho no Maranhão, outro dos estados mais pobres do país, e os motivos para isso estão claríssimos também pelos fatos expostos aqui, eles conseguirão prêmio jornalístico idêntico, o único que realmente importa.