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Mario Sabino

Enquanto Janones espalha fakes, a imprensa demoniza os eleitores de Flávio

É a estratégia da transformação do que é parte no seu todo. A direita também o faz, mas não conta com uma imprensa tão vasta e articulada

20/10/2026 11:54, atualizado 20/10/2026 12:44
Vittor Sales/Divulgação Campanha Flávio Bolsonaro
Imagem colorida mostra Flávio Bolsonaro - Metrópoles

Enquanto André Janones encarrega-se de espalhar fake news com o seu Exército do Lula no WhatsApp, a imprensa, com as exceções de hábito, faz a sua parte na campanha anti-Flávio Bolsonaro.

Com o objetivo de afastar os indecisos da escolha pelo candidato da direita, repórteres se dedicam a registrar episódios de violência física, racismo, misoginia e o que mais possa existir de ruim para apontar condutas individuais como padrões do comportamento de eleitores do oponente do chefão petista.

Eles são os “bolsonaristas”, essa horda que veio para destruir todos os valores humanos, todas as conquistas sociais, todos as iniciativas culturais.

É a estratégia da transformação do que é parte no seu todo. A direita também faz isso em relação à esquerda, mas não conta com uma imprensa tão vasta e articulada.

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Desumanizar o adversário ou apenas aquele que é diferente de você, seja na aparência, nos costumes ou no pensamento, é prática antiga, como explicou o escritor e pensador italiano Umberto Eco, em conferência na Universidade de Bolonha, lá se vão dezoito anos.

A conferência virou um livrinho, A Fábrica do Inimigo, cuja edição francesa foi garimpada por mim em uma das minhas livrarias preferidas, a Compagnie, praticamente em frente à Sorbonne, uma das fábricas de inimigos mais produtivas da esquerda parisiense.

Umberto Eco parte da premissa histórica, sociológica, de que é inevitável ter um inimigo. Ele diz que “é importante para definir uma identidade, mas também para enfrentar um obstáculo, avaliar o próprio sistema de valores e demonstrar bravura. Assim, caso não exista um inimigo, é preciso construí-lo”.

Não se trata de preconizar a identificação ou a fabricação de inimigos e sim de constatar o fenômeno, “quase natural”, e de verificar como se dá “o processo de produção e demonização”.

O escritor e pensador italiano se dedica, então, a mostrar como o inimigo é sempre mostrado como corruptor de valores, deformado fisicamente ou até mesmo fedorento.

O primeiro exemplo citado por Umberto Eco vem da Roma Antiga. Na famosa série de discursos intitulada Catilinárias, o senador Cícero não precisava demonizar os seus adversários, tinha todas as provas do complô do Catilina, mas o faz ainda assim, descrevendo os aliados do seu inimigo como depravados:

“Deitados em seus banquetes, cercados por mulheres impudicas, prostrados pela embriaguez, saciados de iguarias, coroados com guirlandas, banhados em perfumes e exaustos pela devassidão, eles vomitam, em seus discursos ímpios, ameaça de assassinato contra os bons cidadãos e de incêndio contra a cidade. Essa corja vil não passa de um amontoado de jogadores, adúlteros e de tudo o que há de impuro e impudico.”

Desde há muito, os judeus são apresentados como exemplo de uma diferença ameaçadora. O historiador Tácito já dizia que, para os judeus, “é profano tudo o que para nós é sagrado, legítimo tudo o que consideramos abominável”. O antissemitismo, hoje infelizmente ressuscitado com força no Ocidente, é fruto de arquitetura meticulosa e milenar.

“Da misoginia que diríamos ‘normal’, chega-se à construção da feiticeira, obra-prima da civilização moderna”, acrescenta Eco ao seu rol de exemplos históricos. Surgida na Antiguidade, a feiticeira ganha contornos demoníacos nos séculos da Inquisição católica.

Hoje, em complemento à  realidade do choque de civilizações a que assistimos na Europa, o imigrante ilegal é quem ganha tintas semelhantes às dos inimigos de outrora.

No final da sua conferência, Umberto Eco diz:

“Parece ser impossível prescindir do inimigo. A figura do inimigo não pode ser eliminada pelos processos de civilização. Essa necessidade é inata, mesmo no homem pacífico e amante da paz. Só que, nesses casos, desloca-se a imagem do inimigo: de um ser humano para um força natural ou superior que, em maior ou menor grau, nos ameaça e precisa ser combatida — seja a exploração capitalista, a fome no mundo ou a poluição ambiental. Mas, ainda que se trate de casos ‘virtuosos’, Brecht nos lembra que o ódio à injustiça também deforma o rosto.”

Cuidado, portanto, com o seu ódio ao bolsonarismo, colegas repórteres. O seu rosto pode estar se deformando.