Mario Sabino

Depois de Lula, o destino traçado para o PT é o dilúvio

Após Lula sair de cena, o partido diminuirá bastante de tamanho, e desconfio de que o chefão petista concorda com o prognóstico

atualizado

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Ricardo Stuckert
2º Conferência Nacional do Trabalho, no Teatro Celso Furtado, São Paulo -- Metrópoles
1 de 1 2º Conferência Nacional do Trabalho, no Teatro Celso Furtado, São Paulo -- Metrópoles - Foto: Ricardo Stuckert

Ao tirar Lula da prisão e abrir caminho para que ele voltasse à Presidência da República, o STF deu sobrevida ao PT.

Depois que o seu chefão sair de cena, seja em 2026 ou em 2030, o partido deverá ter o mesmo destino de outros grandes partidos da esquerda ocidental, guardadas as especificidades tropicais: o segundo plano, talvez até o terceiro, o que seria certa guetização.

Diminuirá bastante de tamanho porque já não terá Lula para puxar votos. Mesmo com ele na Presidência, o PT encolheu, apesar de ter hoje a segunda bancada na Câmara e a quarta no Senado. Em 2002, o partido elegeu 91 deputados e 14 senadores; 24 anos depois, o PT conta com 67 deputados e 9 senadores. Aumentará expressivamente a bancada em outubro próximo? Difícil.

Quatro estados são governados pelo PT, mas todos são do Nordeste, região onde o partido predomina por causa do assistencialismo, o que aponta para a progressiva regionalização do petismo, as eventuais exceções vindouras apenas confirmando a tendência inexorável. A maior frustração: São Paulo, berço do PT, continua a ser uma fortaleza inexpugnável para Lula e os seus acólitos, e quase certamente não será Fernando Haddad a conquistá-la.

O definhamento do PT está espelhado nas sondagens sobre o desempenho do governo Lula: os jovens, grupo que era o principal manancial de votos, quadros e eleitores petistas, são os que mais o desaprovam.

De acordo com a pesquisa Genial/Quaest divulgada na semana passada, a maior porcentagem de desaprovação está na faixa dos eleitores de 16 a 34 anos: 56%. De 35 a 59 anos, a desaprovação também é majoritária. A aprovação só é majoritária entre os eleitores de 60 anos ou mais: 53%.

O PT é um partido de velhos para velhos, e esse é um dado que, a meu ver, ultrapassa a mera circunstância. Com uma ideologia carcomida, um discurso esclerosado e um presidente octagenário, o PT deixou de ter conexão com uma juventude que pensa muito mais como Nikolas Ferreira do que como José Dirceu — ou como os defensores de uma pauta de costumes que se choca com o conservadorismo da maioria dos brasileiros.

Nikolas Ferreira é síntese: enquanto o PT e assemelhados doutrinam nas escolas e universidades, a direita faz a cabeça dos jovens nas redes sociais, ganhando em persuasão e escala.

Dois outros revezes históricos: o partido perdeu a sua gigantesca base operária, porque os operários foram substituídos por robôs e remanescentes com mentalidade aburguesada; perdeu a sua imensa base bancária, porque os bancários foram substituídos por aplicativos.

As estruturas sindicais não são, atualmente, nem sombra do que foram até a década de 1990. Reduziu-se a massa de manobra e, consequentemente, o dinheiro, que minguou ainda mais após a reforma trabalhista de 2017 ter extinto a contribuição sindical obrigatória (que o STF tentou ressuscitar, sem conseguir atingir integralmente o objetivo).

Não menos importante, ao longo das décadas, por vaidade ou negligência, Lula solapou o surgimento de lideranças capazes de substituí-lo. Foi árvore frondosa demais; a sua sombra impediu que outras crescessem. No meio do bosque, havia apenas um tronco oco: Dilma Rousseff.

O lulismo dificilmente terá continuador à altura, e o epitáfio político do chefão petista poderá ser, assim, a frase de Luís XV (também atribuída à sua amante, Madame de Pompadour): “Depois de mim, o dilúvio”. Desconfio de que Lula concorda com o prognóstico.

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