
Mario SabinoColunas

Dalton Trevisan e os 100 metros rasos da literatura
Há exatamente uma semana, falei de Dalton Trevisan nesta coluna. Ele morreu ontem, aos 99 anos, na Curitiba que era a sua Dublin
atualizado
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Há exatamente uma semana, em artigo de desagravo a Curitiba, cidade que vem sendo ofendida por detratores da Lava Jato, falei de Dalton Trevisan, que morreu ontem, aos 99 anos. Reproduzo abaixo o que escrevi sobre o autor.
“Na literatura, a capital paranaense é o que mais próximo temos da Dublin do escritor James Joyce, como espaço de odisseia subjetiva, graças a Dalton Trevisan, o “Vampiro de Curitiba”, que completará 100 anos em 2025, se tudo der certo.
À diferença de ministros do STF, Dalton Trevisan é um sujeito reservado, completamente avesso a entrevistas, do qual há raríssimas fotos, a maior parte roubadas por paparazzi. É um sujeito invejável também por ser dos poucos que podem dizer que se basta a si próprio, sem precisar do olhar do outro, o verdadeiro inferno (esse é o significado daquela frase de Jean-Paul Sartre,”o inferno são os outros”).
É emprestando um trecho de Dalton Trevisan, curitibano sem ilusões perdidas, visto que jamais as teve, que faço o meu desagravo a Curitiba — e ao bem pelo qual a maioria das pessoas torce contra os bandidos:
‘Curitiba que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o céu azul não é azul. Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja. Curitiba cedo chegam as carrocinhas com as polacas de lenço colorido na cabeça — galiiii-nha-óóóvos — não é a protofonia do Guarani? Um aluno de avental branco discursa para a estátua do Tiradentes.’”
O gênero literário de Dalton Trevisan era o conto, a prova de 100 metros rasos da literatura (o romance já é prova de fundo: no lugar da explosão, a resistência). Nessa prova tão curta quanto intensa, ele foi um dos melhores corredores não só do Brasil, mas da língua portuguesa.