
Mario SabinoColunas

A democracia dos cemitérios
Nos últimos anos, vem se impondo no Brasil o que vou chamar de “democracia dos cemitérios”. É a versão edulcorada da “paz dos cemitérios”
atualizado
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Nos últimos anos, vem se impondo no Brasil o que vou chamar de “democracia dos cemitérios”. A democracia dos cemitérios é a versão edulcorada da “paz dos cemitérios”.
Nela, não se cancelam completamente a oposição, a crítica e a denúncia, mas elas não podem ameaçar o poder, os negócios e a riqueza ilegítimos de quem chefia a democracia dos cemitérios.
É um simulacro de democracia, portanto, visto que enterra cinicamente o princípio fundamental da Constituição Federal, segundo o qual “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.
Na democracia dos cemitérios, o povo deve se comportar como massa de mortos-vivos, que vaga sem destino próprio sob as ordens dos coveiros da plena e necessariamente buliçosa vida democrática.
Nesse regime ora em implantação, não existe censura expressa, ou não se estaria tentando impor um simulacro de democracia, mas há “limites” às liberdades, sempre vendidos como se fossem constitucionais, embora estejam longe de sê-lo, porque muito mais estreitos do que previram os legisladores.
Trata-se de punir, assim, apenas quem “ultrapassa os limites”, e a expressão é utilizada também, hipocritamente, nos porões da democracia dos cemitérios para calar vozes incômodas cujo amordaçamento explícito não seria boa propaganda para o regime.
A democracia dos cemitérios é a versão edulcorada da paz dos cemitérios, mas nem por isso ela é menos violenta, indigna, desprezível. Aponta para uma cleptocracia.