
Manoela AlcântaraColunas

MP denuncia deputado em operação contra lavagem e jogo do bicho
Segundo o MP, após a morte de Adriano da Nóbrega, a viúva Julia Lotufo teria negociado as propriedades com um deputado federal
atualizado
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O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) realizou operação, nesta quinta-feira (19/3), contra esquema de lavagem de dinheiro oriundo do jogo do bicho na Zona Sul do Rio. Houve ainda atuação contra organização criminosa associada a ex-miliciano e sobre branqueamento de patrimônio do grupo.
Foram cumpridos na chamada “Operação Legado” dois mandados de prisão e seis de busca e apreensão contra integrantes de organização criminosa que era liderada e depois sucedeu o ex-miliciano Adriano da Nóbrega, morto em março de 2021.
Os mandados foram expedidos pela 2ª Vara Especializada em Crime Organizado da Comarca da Capital, a pedido do MPRJ. Ao todo, 19 pessoas foram denunciadas, entre elas um deputado federal.
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaeco/MPRJ) dividiu as acusações da operação em três ações penais:
- A primeira trata da lavagem de dinheiro do jogo do bicho na Zona Sul do Rio.
- A segunda descreve a atuação da organização criminosa associada ao capitão Adriano.
- A terceira envolve o branqueamento de patrimônio do grupo. A investigação contou com um trabalho de análise bancária feito pela Divisão de Laboratório de Combate à Lavagem de Dinheiro (DLAB/CSI).
Denúncia contra deputado federal
A investigação do MPRJ identificou dois imóveis rurais que pertenciam ao miliciano, embora registrados em nome de terceiros, avaliados em R$ 3,5 milhões.
De acordo com as apurações do Gaeco, após a morte Adriano, Julia Lotufo, então companheira do miliciano, vendeu as propriedades ao deputado federal Rogério Teixeira Júnior, conhecido como Juninho do Pneu (União). O parlamentar foi denunciado, mas não há mandados expedidos contra ele.
O Ministério Público Federal se manifestou pela ausência de atribuição, uma vez que os fatos investigados relacionados à lavagem de dinheiro não têm relação direta com o exercício do mandato, afastando a incidência de foro por prerrogativa de função.
Esquema milionário de lavagem
Um das denúncias expõem ainda um esquema milionário de lavagem de dinheiro proveniente dos lucros com a exploração do jogo do bicho na Zona Sul do Rio, especialmente em Copacabana.
De acordo com o GAECO/MPRJ, Adriano da Nóbrega controlava esses pontos da contravenção em parceria com o bicheiro Bernardo Bello.
As investigações identificaram empresas de fachada criadas e operadas com o objetivo de receber, movimentar e ocultar valores oriundos do jogo do bicho.
R$ 8,5 milhões
A análise de apenas quatro empresas ligadas ao investigado aponta transações que superam R$ 8,5 milhões em pouco mais de um ano. Entre os empreendimentos de fachada constam um depósito de bebida, um bar e um restaurante.
Os investigadores se depararam com um quiosque de serviços de sobrancelha localizado em um shopping na Zona Norte, cuja conta registrou, em seis meses, aproximadamente R$ 2 milhões em créditos.
Mãe de Adriano
Entre os denunciados está Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano da Nóbrega. Integrantes da organização criminosa seguiram em atividade após a morte do líder, segundo o MP.
Segundo ação penal, o grupo criminoso persistiu e sofisticou sua estrutura mesmo após a morte de Adriano da Nóbrega. Segundo o Gaeco, Julia Lotufo atuava como líder e controlava toda a contabilidade e os ativos da organização criminosa, cujos negócios ilícitos envolviam agiotagem, contravenção e mercado imobiliário irregular.
Deputado Juninho do Pneu fala sobre compra
Em nota, o deputado federal Juninho do Pneu afirmou que vai constituir advogado para tomar conhecimento do inteiro teor da denúncia. O parlamentar disse entender que qualquer investigação sobre deputado federal deve ser autorizada pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
No entanto, afirma ainda que a compra do terreno não foi realizada por ele, mas por seu pai, que tem o mesmo nome. “A compra foi pelo valor de mercado, através de um corretor de imóveis que trabalha há décadas na região. Quanto aos vendedores, não eram pessoas que levantassem qualquer suspeita”, afirmou.
“O parlamentar não conhece e não tem nem nunca teve nenhuma relação com os criminosos citados. Todas as relações comerciais de Juninho do Pneu são feitas dentro da lei e declaradas à Receita Federal”, completou o parlamentar.
