O mercado de afetos: "femosfera e machosfera", as duas faces da mesma moeda
Enquanto homicídios caem no Brasil, feminicídios batem recorde. Por trás dessa tragédia, um ecossistema digital se transforma
Marcelo Zago
Enquanto os homicídios caem no Brasil, os feminicídios sobem. Em 2025, 1.571 mulheres foram mortas por serem mulheres, um aumento de 4% na contramão da queda da violência urbana, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
E não se trata de mera reclassificação. Quando se decompõem as mortes de mulheres, aquelas sem marca de gênero recuam, enquanto os feminicídios seguem crescendo. É como se a letalidade estivesse se refugiando dentro de casa. Não por acaso, entre os autores identificados, quase oito em cada 10 eram companheiros ou ex-companheiros, contra apenas 7% nas demais mortes violentas de mulheres.
O que separa o feminicídio das outras mortes é, precisamente, a intimidade. Nesse cenário, milhões de mulheres buscam na chamada “femosfera” respostas sobre amor e dinheiro. Nem tudo ali é igual: ao lado de alertas vitais sobre relacionamentos abusivos, prospera uma vertente que funciona como espelho da própria machosfera, operando com a mesma lógica essencialista: a romantização do “homem provedor”.
A armadilha da gaiola de ouro
Esse paradoxo é perigoso e rentável. Ao embalar a dependência financeira com a estética do individualismo neoliberal e vendê-la como status, a rede empurra mulheres para o que se pode chamar de síndrome da gaiola de ouro: permanecer numa relação de controle porque sair parece custar mais do que ficar.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesNão é fraqueza de caráter; é armadilha estrutural. A dependência econômica em relação ao agressor é um dos principais obstáculos para deixar um relacionamento violento. O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública reconhece essa dependência como um dos fatores que silenciam a denúncia e ajudam a manter a mulher presa ao ciclo.
Mais do que reflexos que se espelham, a vertente reacionária da femosfera e a machosfera radicalizada são as duas faces de uma mesma moeda: a mercantilização do essencialismo de gênero, que vende dependência a elas e dominação a eles.
Mulheres como ativos precificados
A face masculina, a machosfera, opera sob a mesma lógica fria. O próprio Anuário Brasileiro de Segurança Pública, na esteira da ONU Mulheres, a define como o conjunto de comunidades on-line que associam o valor masculino ao domínio sobre as mulheres, e dedica um texto inteiro a mostrar como esse “mandato de masculinidade”, assentado no controle e na superioridade, se conecta à violência letal.
A mercantilização chega ao absurdo nas “calculadoras de valor sexual de mercado”, que reduzem mulheres a ativos precificados por juventude e submissão. É a contrapartida exata do “homem provedor”: de um lado, o parceiro reduzido a uma cifra; do outro, a mulher reduzida a um troféu, ativo a ser exibido e descartado quando perde o brilho.
Para justificar essa dominação, “coaches” vendem o mito do “macho alfa”, conceito pseudocientífico que o próprio biólogo que o popularizou, L. David Mech, refutou há décadas. A hierarquia baseada na força bruta, sabe-se hoje, não existe em alcateias livres: só aparece entre lobos presos, sob o estresse do cativeiro.
O cativeiro real e o lucro digital
Mas o verdadeiro cativeiro não é o do lobo do mito: é o da mulher que entra na gaiola e descobre, tarde demais, que o provedor não comprou sua companhia, mas a sua posse. Não é força de expressão. No Distrito Federal, dados da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF) mostram que 59% dos feminicídios consumados tiveram como motivação o controle coercitivo (ciúme ou sentimento de posse). Não por acaso, a Lei Maria da Penha reconhece a privação de recursos econômicos como violência patrimonial.
E é justamente desse controle que o ecossistema digital lucra. Mais do que um espaço passivo, o ambiente premia o que gera reação, e o algoritmo faz a misoginia florescer porque ela rende: quanto mais ofensivo o conteúdo, maior o engajamento; quanto maior o engajamento, maior o alcance; e quanto maior o alcance, maior a receita, seja em publicidade, seja na venda de cursos, mentorias e comunidades pagas. Nesse arranjo, a misoginia não é um efeito colateral do negócio: é o seu motor.
A covardia desse modelo fica evidente assim que o Estado se aproxima. Sob ameaça judicial, o extremismo vendido como “verdade” se transmuta na desculpa cínica de que era só uma piada, apenas um “personagem”. Mas a encenação é seletiva: diante do consumidor, o discurso nunca é admitido como ficção, porque é justamente a pretensão de autenticidade que sustenta a venda.
O contágio da violência
O preço dessa monetização do preconceito é pago nas delegacias. O ambiente digital reúne os ingredientes que a criminologia associa ao crime de imitação, o copycat: exposição repetida, corrosão dos freios morais e o agressor transformado em modelo a seguir. Essa dinâmica de contágio é bem documentada no comportamento suicida (o efeito Werther) e há sinais de que alcance a violência de gênero.
O caso mais citado é o da argentina Wanda Taddei, queimada pelo marido em 2010: após a enorme repercussão midiática, especialistas registraram uma multiplicação de ataques a mulheres por fogo no país, batizando o padrão de “efeito Wanda”. Investiguei essa hipótese nos dados do DF; ela ainda não se confirma com robustez estatística tradicional, mas é séria demais para ser descartada. A pesquisa continua.
A violência doméstica raramente começa com um tapa, e raramente termina em morte. O feminicídio é apenas o topo mais visível de uma escalada de controle. Em 2025, para cada feminicídio consumado, o Brasil registrou quase três tentativas (4.189). No DF, entre as vítimas que tinham conseguido uma medida protetiva de urgência, mais da metade foi morta com a medida ainda em vigor, o retrato mais cru de que a lei, sozinha, não fecha a gaiola.
Quando a mulher enxerga as grades e tenta romper o contrato, o agressor não vê a perda de uma parceira: ele vê a rebeldia de um ativo.
Tratados dos quais o Brasil é parte, como a Convenção de Belém do Pará, são claros: a propagação de estereótipos de gênero não é inofensiva. É causa e consequência da violência, acionando um dever inafastável de prevenção pelo Estado.
Tolerar que o ódio funcione como negócio altamente lucrativo, sob o falso manto da liberdade de expressão, não é proteger direitos. É terceirizar o risco de morte das mulheres. Não haverá paz nos lares enquanto a radicalização for a mercadoria mais rentável da rede.
*Marcelo Zago Gomes Ferreira é delegado de polícia, coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF) do Distrito Federal e doutor em Administração Pública pelo IDP. O artigo reflete a posição pessoal do autor, com total autonomia acadêmica.




