Vanity Fair demite jornalista por comportamento “inadequado” em julgamento
Jornalista sorri durante transmissão de julgamento da amiga Lindsay Clancy, acusada de matar os três filhos nos EUA, e é demitida

Um sorriso captado pelas câmeras custou o crachá de uma jornalista credenciada pela Vanity Fair e reacendeu o debate sobre os limites entre vida pessoal e cobertura jornalística em um dos julgamentos mais acompanhados dos Estados Unidos neste ano. A repórter Brittany Romano foi flagrada sorrindo durante a sessão do caso de Lindsay Clancy, acusada de estrangular os três filhos pequenos em Massachusetts, nos Estados Unidos.
Vem comigo!

O flagra
Na segunda-feira (24/8), durante uma das sessões do julgamento de Lindsay Clancy, a jornalista Brittany Romano foi flagrada sorrindo e piscando para a câmera que transmitia a audiência ao vivo. O clipe circulou rapidamente nas redes sociais e, horas depois, a Vanity Fair anunciou o rompimento com a profissional. A revista cancelou o ensaio pessoal que ela vinha escrevendo, revogou seu credenciamento no tribunal e citou descumprimento dos padrões editoriais da publicação.

A repórter estava elaborando um texto encomendado pela revista — que aborda temas como cultura pop, moda, política e atualidades. Romano e Clancy são amigas de infância, e era justamente sobre essa relação que giraria o artigo.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles
Defesa da repórter
Romano se manifestou nas redes sociais. Afirmou que sorrir é uma reação involuntária à ansiedade e pontuou que outras pessoas na sala também riram durante a sessão — embora apenas ela tenha sido flagrada e exposta. A repórter relatou ainda que passou a receber ameaças após o vídeo viralizar e resumiu sua posição em uma frase que também ganhou forte repercussão: “Sorrir não é crime. Mandar uma mulher cortar os pulsos é.”

O julgamento
Lindsay Clancy, de 36 anos, ex-enfermeira de maternidade em Duxbury, Massachusetts, é acusada de estrangular os três filhos pequenos — Cora, de 5 anos; Dawson, de 3; e Callan, de 8 meses — em janeiro de 2023. A tese da defesa sustenta que Clancy sofria de psicose pós-parto no momento dos fatos e que falhas no tratamento psiquiátrico agravaram seu quadro. Já a acusação argumenta que a ré agiu de forma deliberada, consciente de seus atos, e tentou se matar após o crime.

O caso ganhou repercussão internacional por colocar em pauta a saúde mental materna no pós-parto — nos arredores do tribunal, apoiadoras de Clancy costumam se reunir vestidas de rosa. As alegações finais foram encerradas em 27 de agosto. Desde então, o júri delibera sobre o caso, que aguarda o veredicto.

Camada feminina por trás do julgamento
Se o caso Clancy tornou-se um dos julgamentos de maior repercussão nos EUA por debater a saúde mental materna, o episódio envolvendo a jornalista Brittany Romano expôs outra camada do problema: a forma como as mulheres são julgadas publicamente. Apoiadoras de Lindsay acompanham as sessões usando camisetas com frases como “She Needed Help” (“Ela precisava de ajuda”). A maioria afirma ter enfrentado algum tipo de sofrimento psíquico no pós-parto e enxerga no processo uma oportunidade para escancarar as falhas no atendimento médico e psicológico a mães.

Já Romano tornou-se personagem por um motivo bem diferente — e, segundo ela, injusto. Apelidada nas redes sociais de “Green Dress Lady” (a moça do vestido verde, em referência ao traje que usava na sessão), a repórter argumentou publicamente que as mulheres são frequentemente julgadas por qualquer reação emocional: chorar é visto como “drama”, sorrir, como “descaso”, e manter a compostura passa a imagem de que “algo está errado”. Na visão dela, o mesmo escrutínio que recai sobre Clancy pela forma como reage — ou deixa de reagir — à tragédia atingiu também a sua atitude na plateia.

O resultado é um caso complexo e de múltiplas camadas sociais e comportamentais, o que dificulta — e até impede — determinar com clareza os fatores decisivos para os desfechos de Clancy e de Romano.











