Cancelamento de exposição de Galliano expõe mudança de poder na moda
Decisão do Metropolitan Museum of Art questiona influência de referências antes consideradas incontestáveis no setor

Nesta semana, uma notícia inesperada tomou conta das conversas que englobam o universo fashion: o Metropolitan Museum of Art (Met) anunciou o cancelamento da exposição que homenagearia o estilista John Galliano – que, no próximo ano, seria também tema do icônico Met Gala. O anúncio foi muito bem recebido pelo público, porém escancara uma nova realidade: o fim do “reinado” e do poder de Anna Wintour sobre a instituição e o mundo da moda.
Vem comigo entender!

O poder de Anna Wintour
Anna Wintour é um dos nomes mais influentes da história e do jornalismo de moda. Ela foi editora-chefe da Vogue de 1988 a 2025, período de quase quatro décadas em que ajudou a definir o que era considerado relevante no setor. Ainda, tinha o enorme poder para decidir quais designers, modelos, celebridades e tendências receberiam destaque nas páginas de uma das revistas mais lidas de todo o mundo.

Referência inquestionável em sua área de atuação, Wintour também está à frente do Met Gala, um dos eventos mais visados e exclusivos de todo o mundo. Desde 1995, ela preside o jantar beneficente e participa ativamente da escolha dos temas e dos convidados. Além disso, é também uma figura central do Costume Institute, departamento de moda do Met beneficiado pelo evento.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesCom mais de 50 anos no mercado, ela construiu um legado e uma reputação incontestáveis. De acordo com insiders, sua opinião era sempre a mais importante nos bastidores: “Era de conhecimento geral no setor que eles estavam fazendo isso porque Anna Wintour queria, e o que Anna Wintour quer, ela consegue”, disse Amy Odell, escritora da biografia de Anna Wintour, em uma publicação em seu Instagram.

O timing errado
Quando o tema foi anunciado, em julho deste ano, o museu recebeu diversas críticas por homenagear uma personalidade com um passado tão polêmico quanto o do estilista: ele já foi acusado de antissemitismo, foi expulso de um hotel em Londres e também demitido da Dior em 2011.

A escolha rapidamente provocou uma repercussão negativa nas redes sociais, com parte do público apontando um “timing ruim” diante do aumento de episódios de antissemitismo na Europa e nos Estados Unidos. Internautas questionaram se seria justo conceder ao designer o mesmo tipo de honraria reservada a Yves Saint Laurent (em 1983) e a Rei Kawakubo (em 2017), os únicos outros estilistas homenageados pelo Met ainda em vida.


Outra infeliz coincidência se deu quanto à data do evento, que é realizado sempre na primeira segunda-feira do mês de maio. A organização, no entanto, estudava a possibilidade de adiar o tapete vermelho para a semana seguinte, visto que a data original (3 de maio) coincidiria com o Yom HaShoah, também conhecido como Dia da Lembrança do Holocausto e do Heroísmo.

O fim da Era Wintour
O cancelamento da exposição de John Galliano foi visto, por muitos, como uma importante mensagem à Wintour e um sinal para o “fim do reinado” dela no mundo da moda. “Muitos ficaram perplexos com o quão inadequada essa exposição teria sido, e o Met tomou, sem dúvida, a decisão certa ao optar por não realizá-la”, acredita Odell.
“Mas o Met também está enviando uma mensagem muito importante para Anna Wintour. Ela não pode mais agir de forma arbitrária em relação ao museu”, afirma. “Ela vem insistindo e conseguindo o que quer há décadas, e o Met finalmente está dizendo ‘chega’.”

O cancelamento do Galliano, então, revela uma sociedade que não mais ficará calada diante das decisões de figuras historicamente incontestáveis da indústria da moda. Durante décadas, Wintour ajudou a decidir quem entrava e quem permanecia no centro desse universo. Desta vez, porém, sua defesa de uma homenagem controversa não foi suficiente para impedir que a instituição recuasse.
O “reinado” de Anna Wintour pode não ter chegado ao fim, mas o episódio evidencia uma mudança importante na relação de poder. Sua influência permanece enorme, mas já não parece ser, necessariamente, a palavra final.



























