
Ilca Maria EstevãoColunas

September Issue 2020: como o atual cenário impactou as publicações de moda
Revistas renomadas, como Vanity Fair, InStyle, Marie Claire e Harper’s Bazaar, abordaram temas como a pandemia e o ativismo contra o racismo
atualizado
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Setembro sempre foi uma das épocas mais aguardadas do ano na indústria fashion. Além da temporada de desfiles internacionais, com virada das coleções de verão para as de inverno, o mês representa as edições mais elaboradas e especiais das revistas de moda pelo globo. No entanto, em 2020, o mundo enfrenta uma grave pandemia, com necessidade de distanciamento social em muitos países, além de uma onda de intensas reivindicações pelo fim do racismo e outras questões estruturais. Entre erros e acertos, as publicações vêm buscando alternativas e adaptações, ainda que tardias, quando se trata de uma visão social mais ampla.
Vem comigo!

O período é extremamente simbólico. As capas de setembro costumam ser incontáveis. Ao longo dos anos, muitas entraram para a história. O documentário The September Issue, de 2009, retrata bem a relevância do mês na moda.
Dirigido por R. J. Cutler, o filme mostra bastidores da publicação do nono mês de 2007 na Vogue norte-americana. Essa versão teve 840 páginas, das quais mais de 700 foram de anúncios. A produção traz depoimentos da equipe do veículo, incluindo a editora-chefe, Anna Wintour, além de estilistas e outros profissionais.
Há algum tempo, o recheio das revistas já estava diminuindo. Afinal, o público se volta, cada vez mais, para o digital. Além disso, o mercado como um todo vem lidando com um apelo por mais diversidade, inclusão e representatividade em desfiles, eventos ou páginas de revistas. Para completar, neste ano, muitas publicações foram “forçadas” a mergulhar em novos desafios e posicionamentos.
Aqui, a coluna reúne os destaques do September Issue de 2020. Mesmo que seja apenas a ponta do iceberg, diante de todas as problemáticas que permeiam o mercado de moda atualmente, é possível usá-lo como um termômetro de novas visões do mercado. Confira!



September Issue
Pela primeira vez nos 128 anos da marca Vogue, as 26 edições da revista ao redor do mundo se reuniram para trabalhar um tema em comum. O projeto inédito foi intitulado Hope. A ideia da iniciativa, que gira em torno da esperança, é trazer uma perspectiva otimista sobre vários assuntos atuais. Cada edição trabalhou o tema proposto sob a perspectiva da própria linha editorial.
A Vogue britânica, por exemplo, foi batizada de Ativismo Agora e reuniu 20 personalidades para discutirem assuntos variados, como saúde mental e a pauta antirracismo. Entre os convidados, estão Angela Davis, Janet Mock, Joan Smalls, Jesse Williams, Adwoa Aboah e Marcus Rashford.
À CNN Business, o editor-chefe, Edward Enninful, disse que Misan Harriman foi o primeiro fotógrafo negro a clicar a capa de uma edição de setembro da Vogue UK. “Para mim, foi muito importante que tivéssemos uma equipe negra por trás disso”, disse ele, que também é um homem preto.
A Vogue norte-americana elencou a pintora Jordan Casteel para ilustrar a capa com uma obra de sua escolha. Ela retratou a estilista Aurora James, fundadora da marca Brother Vellies. A designer também ficou conhecida pela campanha 15 Percent Pledge, que apoia empresas criadas por negros.
Já a Vogue Itália preparou não apenas uma, mas uma centena de capas. As estrelas foram fotografadas por Mark Borthwick em um estúdio de Nova York. “Cada uma é dedicada a um protagonista individual. É o retrato de uma comunidade que, depois de esperar com afinco, agora se encontra a começar de novo”, declarou o diretor criativo, Ferdinando Verderi.
“Escolhemos 100 pessoas com histórias interessantes, gente talentosa nas mais diversas áreas, ícones do passado, gente que nada tem a ver com moda, de todas as idades. Em seguida, pedimos a cada um deles que nos contasse a história de sua vida em um minuto. Um projeto que pretende ser um documento dos nossos tempos”, completou.





A InStyle convidou a atriz Zendaya para ilustrar a September Issue de 2020. Para a publicação, o ícone das novas gerações conversou sobre ativismo com Patrisse Cullors, cofundadora da organização Black Lives Matter.
Um dos assuntos abordados envolveu o assassinato de George Floyd, que gerou protestos pelo fim da violência policial. “Tem sido difícil permanecer criativo e motivado [durante esse tempo] porque há tantas coisas que podem te derrubar emocionalmente. E então, é claro, tudo o que aconteceu foi devastador” comentou. “Se não sei algo, pergunto às pessoas que estão realmente na linha de frente fazendo o trabalho. Estou na arquibancada, não no campo. Então, eu sempre penso: ‘Como posso torcer por você e ser parte de algo maior do que eu?'”, ponderou a artista.
De acordo com a editora-chefe do veículo, a escolha reflete a realidade, mas não foi feita como algo apenas “simbólico”. “Eu a selecionei [Zendaya] porque gosto dela. Eu a admiro. Ela é relevante durante esse tempo, mas nós não somos dublês”, declarou Laura Brown.
Zendaya foi fotografada pelo duo Ahmad Barber e Donté Maurice. No shooting, a atriz vestiu peças exclusivamente de estilistas negros, como Christopher John Rogers, Aliétte e Pyer Moss. O styling foi assinado por Law Roach.





A editora-chefe da Vanity Fair, Radhika Jones, revelou recentemente que 17 negros protagonizaram a capa da revista entre 1983 e 2017. Contudo, ela está empenhada em mudar esse número. Desde que assumiu o cargo, em 2018, apresentou mais de 10 personalidades negras.
Intitulada The Great Fire, a edição especial é forte. Na capa, há uma pintura – feita por Amy Sherald – de Breonna Taylor, mulher preta assassinada brutalmente pela polícia na própria casa. O jornalista e editor Ta-Nehisi Coates conta a história da jovem por meio das palavras de sua mãe.
Em outra versão especial, a Vanity Fair traz ninguém menos que Angela Davis. Com styling de Nicole Martine Chapoteau, a feminista marxista usou look by Pyer Moss. A foto que estampa a capa foi tirada por Deana Lawson. Para a publicação, a filósofa foi entrevistada pela cineasta Ava DuVernay.
A conversa abordou temas como a problemática da violência policial nos Estados Unidos e críticas ao sistema carcerário. Para Davis, o momento atual contempla uma conjuntura entre a crise da Covid-19 e a crescente consciência da natureza estrutural do racismo. Na visão da norte-americana, a luta deve ser feita de forma contínua e apaixonada, mesmo que pareça momentaneamente que ninguém está ouvindo. Segundo ela, é preciso “criar as condições de possibilidade de mudança”.



No Brasil, a Marie Claire também abriu espaço para a discussão contra o racismo. A empresa de mídia elencou Patricia Dejesus para um diálogo sobre a discriminação racial no meio fashion. A atriz também fez uma reflexão sobre o papel das mulheres brancas na luta, entre outros assuntos pessoais.
“Acho que fui muito usada no mundo da moda. Se precisavam de uma negra, colocavam a Pathy lá. Na época, eu não percebia, mas tinha algumas sensações. Sabia que tinha que batalhar muito mais do que as minhas colegas não negras”, analisou. “E o pior: não tinha um convívio bacana com as outras poucas modelos negras porque a gente tinha uma competição muito grande, as possibilidades de trabalho eram muito menores e sempre tinha lugar para uma só.”
No ensaio, fotografado por Caroline Lima, a modelo e atriz usou peças de labels como Gucci, Valentino e Sauer. O texto é de autoria de Paola Deodoro. Pathy Dejesus declarou que está “sempre preocupada com o amanhã”, pelo fato de ser mulher preta e de origem periférica.
A paulista agradeceu a experiência pelas redes sociais. “Num ano como 2020 em que toda e qualquer conquista deve ser comemorada… E essa é uma senhora conquista! Toda oportunidade de falar sobre mim é também uma chance de revisitar processos na trajetória, nem sempre felizes ou de sucesso, mas que, definitivamente, me fizeram chegar até aqui”, escreveu.




A Harper’s Bazaar apostou em uma dose múltipla de Rihanna para o mês. A cantora está estampada em todas as 26 edições internacionais da revista. Gray Sorrenti fotografou a artista em cenas que remetem à rotina caseira durante o período de distanciamento social. A direção criativa é de Jen Brill.
No editorial, Rihanna veste roupas das próprias etiquetas de moda (Fenty e Savage x Fenty, de lingeries) e usa produtos de sua própria linha de maquiagem, Fenty Beauty. Há também peças de grifes como Bottega Veneta, Max Mara, Chanel e Amina Muaddi, entre outras.




A rapper Cardi B é a estrela da Elle norte-americana. Em shooting clicado por Steven Klein, ela apareceu coberta de joias, com direito até a uma peruca de cristais. Entre as produções, itens de grifes como Paco Rabanne, Balenciaga, Keren Wolf, Area, Versace e Mordekai by Ken Borochov.
Em entrevista à jornalista Marjon Carlos, Cardi B disse não ligar para as críticas que recebe constantemente. “Não dou a mínima se o mundo todo se voltar contra mim. Eu não dou a mínima se as pessoas inventam mentiras sobre mim o tempo todo. Quero deixar claro que nunca ninguém vai me fazer desistir”, afirmou.
A cantora também comentou sobre o homicídio de Breonna Taylor. “Qual é a desculpa? Por que o policial não está na prisão? O que ele cometeu não foi um crime? É um crime! E sem desculpas”, indignou-se. “Eu nem sei como sua mãe ainda mantém a cabeça erguida. Inacreditável”.




“Novo normal?”
É importante destacar que, em setembro, as revistas de moda atraem grande parte das receitas de publicidade. De acordo com análise publicada pelo Business of Fashion, em geral, o resultado deste ano não é suficiente. “Embora as publicações tenham posturas editoriais progressistas, a maioria tem evitado se envolver explicitamente com tópicos polêmicos que podem alienar algum subconjunto de leitores e, portanto, anunciantes”, apontou o portal.
“Esse pensamento já estava mudando antes de 2020, com algumas marcas populares entrando na conversa política. Mas, entre a pandemia e os protestos do Black Lives Matter, os editores estão testando os limites de até onde podem ir para atender tanto aos anunciantes quanto a um público cada vez mais voltado para o social e o político”, completou o artigo, assinado por Alexandra Mondalek e Daphne Milner.
O momento atual pede por uma renovação efetiva, não só de conceitos e rotinas, mas principalmente de valores. Uma verdadeira revisão de prioridades. Novas posturas e senso coletivo são necessários no enfrentamento da pandemia global e também para a expansão de movimentos de conscientização. Isso vale para marcas, veículos de comunicação e, claro, o público como um todo.
Veja outras capas de setembro de 2020:
Colaborou Rebeca Ligabue























