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Ilca Maria Estevão

Entenda por que a Farm gerou revolta após a morte de Kathlen Romeu

A jovem de 24 anos, que trabalhava como vendedora na loja da grife carioca em Ipanema, morreu após ser baleada na última terça-feira (8/6)

10/06/2021 14:23, atualizado 10/06/2021 15:25
Rogério Jorge/Instagram/Reprodução
Kathlen Romeu

A Farm recebeu milhares de críticas nas redes sociais, na quarta-feira (9/6), e foi acusada de lucrar com a morte de Kathlen Romeu. Vítima de bala perdida durante troca de tiros entre facção criminosa e a Polícia Militar na última terça-feira (8/6), no Rio de Janeiro (RJ), a jovem de 24 anos estava grávida de 14 semanas e trabalhava como vendedora da grife carioca. Em um post no Instagram, a marca havia anunciado que a comissão das compras feitas no código de Kathlen seria revertida para a família da jovem. Acusada de se aproveitar da situação para vender, a marca removeu o código do ar, horas depois: “Erramos”, afirmou, em outra publicação.

Rogério Jorge/Instagram/ReproduçãoKathlen Romeu
Kathlen Romeu, morta por bala perdida na última terça-feira (8/6), no Rio de Janeiro (RJ). A jovem estava grávida de 14 semanas e havia anunciado a gestação há poucos dias
Posicionamento inicial e críticas

Antes da controvérsia sobre o código, o fundador e CEO da marca, Marcello Bastos, havia se manifestado sobre o assunto em seu perfil pessoal no Instagram. No texto, ele fez elogios à trajetória profissional da jovem, que trabalhava na loja do bairro de Ipanema. O empresário disse ainda que está “completamente devastado com essa tragédia absurda”. Na manhã da quarta-feira (9/6), colegas de Kathlen colocaram flores na fachada da loja, em homenagem a ela.

Já no começo da tarde, na mesma data, a marca carioca emitiu um comunicado no Instagram lamentando a perda de Kathleen e de seu bebê. Afirmou, ainda, que daria o suporte necessário à família da jovem, além de apoio psicológico e emocional a quem precisasse. Em seguida, mencionou a ação que gerou polêmica nas redes sociais.

“A partir de hoje, toda a venda feita no código de Kathlen – E957 – terá sua comissão revertida em apoio para sua família. Reforçando que nós também vamos apoiá-la de forma independente e paralela”, informou. Não demorou para usuários da rede social e influenciadores digitais se manifestarem nos comentários, apontando a insensibilidade da ação.

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@marcellobastos/Instagram/ReproduçãoPost de Marcello Bastos, fundador e CEO da Farm, sobre a morte de Kathlen Romeu
Marcello Bastos, fundador e CEO da Farm, havia se manifestado sobre a morte de Kathlen antes da polêmica
Aline Massuca/Metrópoleshomenagem a Kathlen
Na manhã de quarta-feira (9/6), as colegas da jovem fizeram uma homenagem na fachada da loja onde ela trabalhava, em Ipanema
Instagram/ReproduçãoPublicação da Farm sobre a morte de Kathlen Romeu
Já no começo da tarde, a marca fez um comunicado no perfil oficial e gerou revolta ao anunciar um código de vendas

Nath Finanças, por exemplo, afirmou que a marca poderia oferecer a oferecer ajuda “sem precisar lucrar” em cima da situação. No caso da comissão, como ela explicou, o vendedor ganha apenas uma porcentagem do valor das vendas, enquanto outra parte fica para a empresa. “Se autopromover com a morte alheia? Ganhar dinheiro em cima? Como pode, Farm?”, criticou.

“Não precisa de cupom nenhum! Vocês têm dinheiro suficiente para poder ajudar a família”, comentou uma internauta. “Por que não fazem uma doação, então?”, perguntou outra. “Ou seja, a Kathlen vai continuar gerando lucro para vocês até depois de assassinada?”, questionou a escritora e pesquisadora Winnie Bueno. Até a manhã desta quinta-feira (10/6), o post do comunicado no Instagram tinha mais de 17 mil comentários, além de o assunto ter entrado nos Trending Topics do Twitter.

Instagram/ReproduçãoComentários em post da Farm sobre Kathlen Romeu
Comentários em post da Farm sobre Kathlen Romeu
Instagram/ReproduçãoComentários em post da Farm sobre Kathlen Romeu
Comentários em post da Farm sobre Kathlen Romeu
Instagram/ReproduçãoComentários em post da Farm sobre Kathlen Romeu
Comentários em post da Farm sobre Kathlen Romeu
Instagram/ReproduçãoComentários em post da Farm sobre Kathlen Romeu
Comentários em post da Farm sobre Kathlen Romeu
Resposta da marca

Algumas horas após anunciar a ação polêmica, a marca se retratou em outra publicação. “A Farm vem a público se desculpar pela ação que envolveu o uso do código de vendedora de Kathlen Romeu nesse momento tão difícil. Com vocês, entendemos a gravidade do que representou esse ato, por isso, retiramos o código E957 do ar. Continuaremos dando o apoio e suporte à família, como fizemos desde o primeiro momento em que recebemos a notícia”, comunicou. Em nota à imprensa, a empresa anunciou que vai reverter 100% dos valores gerados com as vendas feitas pelo código para a família de Kathlen.

A publicação voltou a receber críticas, algumas delas acusando a marca de não ter aprendido com erros anteriores. No passado, a Farm se envolveu em polêmicas, que incluem uma estampa com desenhos de escravos, além de acusações de plágio e de racismo, como em fotos com referências à cultura negra estreladas por modelos brancas.

A líder da área de diversidade da Farm, Caroline Sodré, manifestou-se sobre a controvérsia recente pelo Instagram Stories, em seu perfil pessoal. A historiadora afirmou que concorda com tudo que foi falado em relação à ação da marca e agradeceu pelas trocas, que permitiram uma “interação construtiva”.

“Estou com a equipe interna, até agora, pensando, refletindo e entendendo. Erramos feio, mesmo que a intenção tenha sido boa. De boa intenção, o inferno está cheio. Vou voltar aqui para conversar com vocês. Obrigada”, escreveu. “Sempre serei honesta e 100% transparente com vocês. Sempre. E nunca vou fugir do BO”, completou. A Farm pertence ao Grupo Soma, que também é dono de grifes como Animale, A.Brand, Cris Barros, Maria Filó e ByNV.

Instagram/ReproduçãoComunicado da Farm após polêmica com código de vendas de Kathlen Romeu
A marca se retratou sobre o uso do código diante do “momento tão difícil”, mas os seguidores mantiveram as críticas. Algumas acusam a marca de não ter aprendido com os erros anteriores, já que há várias polêmicas anteriores a este caso
Farm/DivulgaçãoModelo em editorial da Farm
Esta foto, com referências à cultura negra e estrelada por uma modelo branca, rendeu críticas relacionadas a apropriação cultural e racismo, em 2014. Na legenda desta foto, a marca havia dito: “Nossa Iemanjá”
Farm/DivulgaçãoEstampa da Farm
Em 2017, esta estampa com desenhos de escravos também foi alvo de críticas
Farm/DivulgaçãoEstampa de pipoca em peças da Farm
No começo do ano passado, a grife foi acusada de plagiar o trabalho da estilista Ligia Parreira nesta estampa
Justiça por Kathlen

O caso de Kathlen Romeu gerou revolta por resultar em mais pessoas negras mortas (ela e o bebê) durante uma ação policial. Uma das manifestações nesse sentido foi da Coalização Negra por Direitos, que reúne entidades de todo o Brasil dedicadas ao movimento negro. A ONG pediu justiça para este e outros casos de pessoas negras mortas e marcou um ato para as 17h desta sexta-feira (11/6) em frente ao Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), na capital paulista.

“É inaceitável a política de segurança pública genocida do Rio de Janeiro, que hoje fez mais uma vítima: Kathlen Romeu, mulher negra de 24 anos, grávida de quatro meses, baleada durante uma operação da Polícia Militar, na comunidade do Lins, zona norte da capital. A política de morte do RJ, alinhada ao governo Bolsonaro, mantém em curso o genocídio do povo negro no Brasil”, declarou.


Colaborou Hebert Madeira