
Ilca Maria EstevãoColunas

Colar criticado de Sabalenka revela tradição da moda no tênis
Mais do que uma polêmica pontual, o episódio revela uma característica histórica do tênis: a atenção dedicada à aparência e ao estilo
atualizado
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A tenista Aryna Sabalenka vestiu, em Roland Garros, colares avaliados em mais de 130 mil euros. Ela foi criticada por usar o item de luxo após reclamar sobre o valor do prêmio, e respondeu que luta pelas jogadoras de ranking mais baixo. A atleta também destacou que se sentir bem vestida é importante para sua autoconfiança em quadra.
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Críticas recentes a jogadoras
A tenista Naomi Osaka também tem sido alvo de diversas críticas por suas produções de moda usadas em quadra. No entanto, a relação entre a moda e o tênis é longínqua e os jogadores sempre usaram produções como forma de expressão.

Até o início do século 20, as tenistas entravam em quadra de saia longa e espartilho. Pesadas, restritivas e completamente inadequadas para o esforço físico que o esporte exige, as roupas das atletas eram, antes de tudo, um reflexo das convenções sociais da época, e não da performance dentro das quadras.

Foi Suzanne Lenglen quem mudou tudo. Multicampeã e primeira estrela global do tênis, ela precisava de roupas à altura do seu jogo, criadas pelo costureiro Jean Patou: saias plissadas na altura do joelho e regatas de seda branca. Boa parte do sucesso de Lenglen, afirmam historiadores, deve ser atribuída também a essa liberdade de movimentos recém-conquistada.

A relação histórica entre o tênis e a moda
René Lacoste cruzou os dois universos de vez, tenista tenaz, depois de 7 títulos do Grand Slam, fundou em 1933 a marca que leva seu sobrenome. Na época, os tenistas jogavam com camisas sociais de mangas compridas e tecidos pesados. Incomodado com a falta de mobilidade, René desenhou uma camisa de mangas curtas feita de algodão leve e respirável (petit piqué).
Com códigos como a camisa polo, o algodão confortável e o crocodilo bordado no peito, a marca, ao longo das décadas, foi muito além da vestimenta esportiva. A Lacoste passou a realizar desfiles nas semanas de moda de Paris, firmou colaborações com nomes como Comme des Garçons, A$AP Rocky e até com a coleção de Roland Garros, e expandiu sua visão criativa para coleções sazonais com identidade de moda.

Desde então, diversos jogadores usam a moda a seu favor em quadra. Agassi entrou em jogo com meias neon, bandanas e shorts jeans. Serena usou tutus assinados por Virgil Abloh e conjuntos que desafiavam qualquer código de vestimenta.

E não foi só a moda que influenciou o tênis, o esporte também passou a influenciar a moda: o estilo preppy nasceu nas universidades da costa leste americana nos anos 1950, vestindo os filhos da elite que frequentavam as chamadas “prep schools”, escolas preparatórias para as grandes universidades – como Harvard e Yale.
Polos, calças chino, mocassins, listras e cores como azul marinho, verde e vermelho formavam um guarda-roupa que dizia a qual classe social você pertencia. O tênis era parte central disso: jogar nas quadras dos clubes privados era tão importante quanto saber se vestir para tal.
Com o tempo, o preppy saiu das universidades e dos clubes e foi parar nas passarelas. Ralph Lauren foi quem melhor traduziu essa estética para a moda de massa, transformando um código de classe em desejo coletivo. Hoje, revisitado por marcas como Miu Miu, Ganni e Céline, o estilo ganhou uma releitura mais contemporânea.

O tenniscore
As roupas inspiradas no esporte também explodiram em popularidade devido às redes sociais e ao crescimento da aderência ao esporte. O filme Challengers, lançado em 2024, também corroborou com a reprodução da estética do esporte na vida real: o chamado “tenniscore”.

As marcas de luxo responderam a esse chamado indo muito além do patrocínio de logotipo. A Gucci lançou uma coleção de tênis inspirada em arquivos da década de 1970, reafirmando uma conexão com o esporte que a casa italiana mantém há mais de 40 anos.
No segmento de relógios, a Rolex trabalha com os números um e dois do ranking masculino, Jannik Sinner e Carlos Alcaraz, enquanto Aryna Sabalenka, líder do feminino, é embaixadora da Audemars Piguet. A Hublot chegou a criar um relógio com Novak Djokovic usando material das suas raquetes e camisas antigas.

O tênis sempre foi um esporte cujos jogadores se importam com as aparências. Nasceu entre a elite, cresceu lado a lado com marcas de luxo. O que parece incomodar em Naomi e Sabalenka é o estilo fora do padrão clássico de mulheres confiantes.









