Lembranças do fim do mundo

Duas décadas do atentado ao World Trade Center, o trágico 11 de Setembro, completam-se em breve e convidam a parar para pensar

atualizado 21/07/2021 9:00

HBO/Divulgação

Duas décadas do atentado ao World Trade Center, o trágico 11 de Setembro, completam-se em breve e convidam a parar para pensar. Você há de convir que parar para pensar não é a tônica dos dias atuais – pelo menos para a maioria das pessoas, e não estamos culpando ninguém por isso. 

Aliás, neste espaço não culpamos ninguém por nada. Já basta a epidemia de juízes instantâneos espalhados por aí. Mas não os culpamos também. Temos sido todos convidados a isso pelas circunstâncias da comunicação total – convidados a julgar a tudo e a todos todo o tempo, inclusive a nós mesmos. Mas dessa parte (julgar a si mesmo) em geral dá para escapar apontando o dedo para o outro. Então vamos parar para pensar.

Aqueles aviões mergulhando como mísseis nas Torres Gêmeas de Manhattan eram a visão do fim do mundo. E, de fato, o mundo estava acabando. Não pela devastação terrorista ou pelos rompantes bélicos de W. Bush, mas por uma destruição muito pior – e muito menos visível. O raiar do século 21 estava grávido da escalada de deslealdade.

A lealdade é descendente direta da necessidade. Porque a vida é dura. 

(Sim, para todos. Mesmo para os que conseguiram bons amaciantes. Nenhum deles é bloqueador de sofrimento e finitude.)

Antes de tudo, lealdade é código de sobrevivência. Estamos todos na mesma aventura, no mesmo sonho, na mesma roubada. O convite à onipotência é o beijo da morte. O ser humano mais evoluído é aquele que descobre com mais clareza que precisa de ajuda. E precisa ajudar. Conta comigo. Lealdade.

O veneno do século é a facilidade. Veneno e bênção. Bênção e veneno. Com a ponta do dedo indicador você move o mundo. Quase literalmente. Se não chega a fazer a Terra girar, com certeza você faz girar um mundo de coisas sobre ela. Vertigem. Segura, peão. Vai aonde com tanta pressa? Vai aonde com isso tudo na mão? Vai aonde com toda essa prodigiosa e assustadora leveza?

Vou aonde eu quiser – responde você, ele, nós. Vou e volto num piscar. Sem piscar. Piscar pra quê? Tanta coisa pra ver, melhor não piscar. Mas tá vendo mesmo? Ou tá só olhando?

O século 21 é o ser humano se regozijando na sua doce armadilha. Olha como eu tô alto, mãe! Olha onde eu cheguei! Êta, brinquedo bom. E fui eu que fiz! Eu sou foda. Sou ou não sou, mãe? Lembra de mim numa caverna escura? Olha onde eu tô agora. Olha quanta luz, quanta tela, quanta cor na palma da minha mão. Tenho tudo na palma da minha mão. Tenho vocês todos. Tenho vocês à revelia de vocês, se eu quiser. E se eu não quiser sumo com todos vocês num piscar, quer dizer, sem piscar. Não quero piscar. Não dá tempo. Não quero parar. Quero querer. Querer sem parar. 

Se tem alguém escrevendo esse roteiro, a ideia talvez tenha sido essa: vamos jogá-los num dilúvio de facilidades e ver como fica a lealdade. Com um delicioso convite à autossuficiência – convite firme mesmo, palpável, de sentir o gosto na boca – vamos ver o que sobra daquele velho pacto vital com o outro.

As tentações egoístas são tão reais no ser humano quanto difíceis de esconder. A gente chegou muito alto, mãe, e tá todo mundo vendo. Todo mundo vê tudo. Logo agora que a parte feia da vida, feia que nem a necessidade, foi embelezada pela nossa transcendência digital e deu na gente uma vontade danada de ser leal só à palma da nossa mão. Existe vida inteligente sem cabeça baixa?

Aí o roteirista teve uma ideia engenhosa para salvar a espécie do vexame egóico: você é o que você diz. E como o que qualquer um diz dá a volta ao mundo num piscar, sem piscar, você pode forjar uma personalidade para si instantaneamente, com milhares ou milhões de testemunhas autenticando no ato e reconhecendo a sua firma de graça. Certifico e dou fé que este ser é o que diz ser – e em troca recebo também em tempo real o meu certificado existencial digital.

Você pode estar fisicamente diante de mim – mas só te reconheço no momento em que acessar o seu perfil.

Seus problemas acabaram. Para ser leal somente à palma da sua mão sem parecer um ogro você constrói uma personalidade preocupadíssima com os outros – e para isso você sai à caça (lembra da caverna?) de semelhantes digitais que você possa acusar de não se preocuparem com ninguém. É nesta feira de altruísmo postiço que você está 20 anos depois do 11 de setembro.

O mundo acabou ou não acabou?

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