
Guilherme FiuzaColunas

Orgulho x patrulha
Escola da patrulha está criando um exército de moralistas digitais e caçadores de bruxas
atualizado
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Alguns dos meus melhores amigos são gays. Nos conhecemos há décadas. E quando nos conhecemos não tinha tanta gente careta querendo grudar carimbo de homofóbico na testa dos outros – para poder ostentar esse crachazinho de “diversidade” que impressiona os distraídos.
E você? Quantos você conhece que murmuram “orgulho” e se mascaram de arco-íris para poder, basicamente, patrulhar quem não usa o kit demagogia? Patrulha burra dá voto, dá like, dá grana. Mas não ajuda ninguém.
A contracultura que explodiu na Califórnia nos anos 60 botou o dedo na ferida da sociedade fechada, ou pelo menos hostil, ao relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. O movimento gay – como a palavra diz – veio mostrar a irreverência, a alegria e também a ousadia e a criatividade de pessoas que se relacionavam sem seguir o padrão das sociedades tradicionais.
Ser gay podia ser saudável. E podia ser neurótico. Assim como podia haver saúde e/ou neurose no comportamento hétero. Cada um com a sua cruz e a sua glória, e vamos em frente. Ninguém é polícia de ninguém.
Fomos em frente. Nos anos 80, quando conheci os amigos citados acima (são meus irmãos até hoje), eles já não eram “amigos gays” – porque estávamos 20 anos adiante da derrubada do tabu. Orgulho ou estigma sexual já não se impunham como distintivos entre as pessoas. Como disse uma vez Eduardo Dusek, não havia essa obsessão de tipificar as pessoas pelas escolhas delas na cama.
Nessas duas décadas (dos 60 aos 80) os gays puderam se afirmar à luz do dia em vários territórios – artes, negócios, esportes, etc. Claro que não estava tudo resolvido (como não está). Um grande tabu não cai de uma vez. Mas já não era um escândalo Cazuza e Ney Matogrosso no Baixo Leblon.
É um pouco estranho para quem viveu essa época ver hoje a Fátima Bernardes explicando diariamente que os gays devem ser respeitados, como se tivéssemos dormido numa mesa do Real Astória e acordado 30 anos depois num telecurso sexual. Com todo o respeito à Fátima Bernardes, jornalista de alta competência, e também à TV Globo, à qual devemos uma infinidade de obras maravilhosas – muitas delas criadas/interpretadas por artistas gays (felizmente sem esse carimbo). Não tenho dúvidas de que o humor não seria o mesmo, nas artes e na vida, sem os gays.
Paulo Gustavo tinha um personagem poderoso que dizia “sou bicha, adoro ser bicha” – ao mesmo tempo que fazia uma caracterização arrebatadora do pitboy metido a pegador (pra mim o melhor dele), um show de talento que sacaneava impiedosamente o machão. Já revi esses esquetes umas 200 vezes e não tenho dúvidas de que, além de deliciosa, essa expressão faz muito mais pelo avanço da liberdade de identidade do que a discurseira que vende minorias como eletrodomésticos.
Estamos enguiçados numa pauta mercadológica. Não sou sociólogo, mas arrisco dizer que isso não está fazendo bem a ninguém. A industrialização de causas importantes, com artificialização e banalização da mensagem, não está harmonizando – está segregando. Está criando predisposições de todos os lados. Está irritando. Levem em consideração esta hipótese de boa-fé: combater preconceito com caricatura é inútil.
Claro que ainda há ações inteligentes e eficazes, mas infelizmente estão ofuscadas pelo show de afetação de virtudes supostamente progressistas. E pela triste escola da patrulha – que está criando um exército de moralistas digitais e caçadores de bruxas, ávidos por um pretexto para viralizar suas reprimendas de laboratório. Dedurar is beautiful.
O progressista de butique é o novo reacionário. Não podemos jogar fora décadas de avanço civilizatório, comportamental e estético por um feirão de panfletagem tosca. Viva e deixe viver.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
