Com Bruna Lima, Edoardo Ghirotto, Eduardo Barretto e Naomi Matsui

Análise. Lula e o desafio de conciliar pautas da esquerda e reconquista dos evangélicos

Pela primeira vez o ex-presidente terá de encarar temas que são caros aos seus apoiadores e que podem afastá-lo dos grandes templos

atualizado 10/09/2021 22:24

Lula e Pastor Sargento IsidórioReprodução/Redes Socias

Um dos maiores desafios de Lula na campanha presidencial de 2022 será conciliar a defesa de temas caros à militância de esquerda com o esforço para reconstruir as pontes com os líderes evangélicos que foram atraídos em sua maioria para o bolsonarismo.

Hoje, a equação é de difícil solução porque a militância lulista está muito mais à esquerda do que o ex-presidente. Nas últimas duas semanas, Lula teve amostras dos questionamentos que terá de enfrentar até outubro de 2022.

No dia 1º, Lula esteve num programa de entrevistas conduzido pela ex-BBB Thelma Assis e que contou com a participação da artista travesti Linn da Quebrada. Lula havia acabado de encerrar um ciclo de viagens pelo Nordeste e aproveitou a passagem pela Bahia para tirar uma foto com o Pastor Sargento Isidório, deputado federal com maior votação no estado em 2018 e que há tempos coleciona declarações homofóbicas. Evangélico, Isidório afirma ser um “ex-homossexual” que foi “curado” pela religião.

Linn questionou o ex-presidente sobre os elogios que ele havia feito a Isidório e ouviu como resposta uma típica frase lulista. “Se eu puder dar uma contribuição para que o pastor Isidório não tenha nenhum preconceito nem falta de respeito com vocês, eu vou fazer. E se eu puder convencer vocês a não ter com ele, eu também vou fazer”, disse Lula.

A argumentação poderia funcionar em 2002. Não funciona mais em 2021. Linn e Thelma engrossaram o coro sobre como as falas de Isidório legitimam atos de violência contra a população homossexual e não permitiram que Lula as interrompesse — e ele tentou. Foi uma primeira saia-justa.

Na quinta (9/9), foi ao ar no Spotify a entrevista de mais de duas horas que o rapper Mano Brown, líder do grupo Racionais MC’s, fez com Lula. Brown não colocou o ex-presidente em sinucas de bico, mas o fez tratar de temas que nunca foram motivo de preocupação para Lula, como o fato de a direção do PT ser composta em sua totalidade por pessoas brancas. Como resposta, Lula disse que a política em geral sempre foi ocupada por brancos e que o PT está se adaptando aos “novos tempos”.

Quando tratava de religião, Lula pareceu mandar um recado velado à militância ao dizer que “nós precisamos voltar a gostar das pessoas” e que se dará a “oportunidade de conhecer as pessoas”. “Se alguém falar para eu não conversar com o Mano Brown porque ele é isso ou é aquilo, eu vou dizer que ele pode ser para você, mas não para mim. Então eu vou conversar com ele para saber”, disse Lula.

Não significa que Lula perderá os votos da militância se não for mais assertivo em relação a temas que se tornaram bandeiras importantes para a esquerda. Mas percalços surgirão, como o racha interno no PSol entre grupos que querem apoiar a candidatura do ex-presidente e alas que não desejam seguir com o petista no primeiro turno.

Entre os evangélicos, o PT ainda patina para conquistar apoios. Isidório pode ser uma figura relevante na política da Bahia, mas não tem influência no cenário nacional. Até agora, Lula conseguiu apresentar ao público uma foto com o bispo Manoel Ferreira, do Ministério Madureira da Assembleia de Deus. E só.

Em abril, o líder dos sem-teto Guilherme Boulos, do PSol, jantou com o deputado Marcos Pereira, que preside o Republicanos e tem fortes ligações com a Igreja Universal. A ideia de Boulos não era pedir apoio de Edir Macedo em 2022, mas construir entendimentos para que o bispo permanecesse neutro na disputa. Lula começou a experimentar estratégias que apontam para essa direção. É um novo cenário político ao qual o ex-presidente terá de se adaptar.

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