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Liga dos clubes de elite captou R$ 750 milhões em fundo administrado pela Trustee, de ex-sócio do Master
A Trustee é investigada pela Polícia Federal nas operações Carbono Oculto e Compliance Zero
atualizado
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A liga Futebol Forte União (FFU) captou R$ 750 milhões em um fundo administrado pela Trustee DTVM, de propriedade de Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. A Trustee é investigada pela Polícia Federal nas operações Carbono Oculto e Compliance Zero – que apura fraudes do Banco Master – por gerir fundos suspeitos de ligação com o crime organizado.
A operação foi realizada pela Sports Media, de investidores da FFU, em setembro de 2024. O objetivo era obter recursos para investir na compra de direitos de transmissão de televisão e direitos comerciais dos clubes, segundo informado pelo UOL e confirmado pelo Metrópoles em documentos oficiais. A operação escolhida é chamada de debêntures conversíveis, que dá direito a ações da organização como pagamento. A Sports Media tem participação em 30 times das séries A e B do campeonato.

Esse negócio foi realizado por meio do Miller Fundo de Investimento em Participações, que era administrado pela Trustee DTVM. As debêntures vendidas pela Sports Media para captação dos recursos representavam 99,8% do Miller – ou seja, o fundo era composto quase que unicamente pelo negócio envolvendo o futebol brasileiro. De acordo com informações obtidas pelo Metrópoles, em meados de 2025, o valor de mercado das debêntures já chegava a R$ 877 milhões – o que significa lucro para o fundo de R$ 127 milhões.
O fundo está com registro cancelado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). E a Trustee permanece sob a mira dos investigadores da PF por suspeita de envolvimento nos negócios escusos do Master. A ligação entre a gestora e o banco é provada, além dos negócios, pelo endereço: ambos registraram oficialmente que funcionavam no mesmo lugar, na Faria Lima, 3477, 11º andar.

Na negociação sobre o financiamento da FFU por meio do fundo Miller, quem representa a Trustee são os diretores Artur Martins de Figueiredo e Flavio Daniel Aguetoni. Figueiredo é investigado no âmbito de outra operação da PF deflagrada em agosto de 2025 com objetivo de desarticular grupos criminosos em lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta de instituições financeiras. Já Aguetoni administrou a Planner, outra corretora suspeita por negócios feitos com a Reag, administradora liquidada pelo Banco Central após ser alvo de investigação por suposta lavagem de dinheiro de facção criminosa.
Segundo o UOL, o Miller foi liquidado em agosto de 2025, mesmo período em que a Faria Lima foi sacudida pela Operação Carbono Oculto.
O outro lado
A Sports Media se pronuncia por meio de nota enviada à reportagem. Veja:
“A Sports Media Entertainment esclarece que não tem e nunca teve relação com Daniel Vorcaro ou seus sócios, tampouco tinha conhecimento de eventual ligação da administradora de fundos Trustee DTVM com o Banco Master.
Em 2024, a Sports Media contratou a Rothschild, uma das principais consultorias independentes de serviços financeiros do mundo, para assessorá-la na captação de recursos. Ao fim do processo competitivo, a Farallon Latin America Investimentos, renomada gestora global, foi selecionada para investir R$ 750 milhões em debêntures da companhia, por meio do fundo criado por ela, o Fundo Miller, cuja administração foi atribuída à Trustee DTVM, agente financeira autorizada pelo Banco Central e pela CVM a atuar no mercado de capitais. A Sports Media não teve ingerência na estruturação do fundo que comprou as debêntures, pois as decisões de investimento eram de responsabilidade exclusiva da Farallon. No entanto, a SME reforça sua confiança na governança e nos procedimentos adotados pela Farallon.
A SME destaca que jamais houve risco de conversão das debêntures em ações por inadimplência. Ainda que houvesse, o investidor não exerce controle do Condomínio Forte União, cuja governança assegura uma efetiva cogestão entre clubes e investidores. Além disso, a convenção de condomínio prevê uma série de mecanismos de proteção em caso de mudança de controle no grupo investidor.
As demonstrações financeiras da Sports Media de 2024 e 2025 foram auditadas e aprovadas sem ressalvas pela KPMG. Por fim, a SME ressalta que a discussão sobre a presença de investidores no futebol brasileiro não deve ser pautada por questões meramente ideológicas, baseadas em recortes narrativos imprecisos sobre a estrutura criada pelos clubes com a SME. O tema merece ser debatido com foco em gestão e resultados. Juntamente com os clubes, a Sports Media Entertainment colaborou para a formação de uma engrenagem que revolucionou a venda de direitos de transmissão de jogos de futebol no país e produziu o maior incremento de receitas da história do futebol brasileiro.“
